quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Cristina Kirchner enfrenta rebelião do presidente do BC


BUENOS AIRES -

A presidente Cristina Kirchner pediu nesta quarta-feira de manhã a renúncia do presidente do Banco Central, Martín Redrado. A presidente, imaginando que Redrado acataria o pedido, ofereceu o cargo ao economista Mario Blejer, ex-presidente do BC e ex-diretor do Banco da Inglaterra. No entanto, inesperadamente, o governo Kirchner deparou-se com a resistência de Redrado, que, por sua vez anunciou que não renunciará ao posto, já que seu mandato, que iniciou em 2004, só concluiu no dia 23 de setembro.

Os principais líderes da oposição declararam apoio a Redrado, para que este permaneça em seu cargo. O senador Gerardo Morales, da União Cívica Radical (UCR), que reuniu-se com ele ao meio-dia, confirmou que “Redrado não renunciará. Ele não irá embora”.

O impasse causa preocupação nos mercados, já que por trás da crise entre Redrado e a presidente Cristina está a decisão do governo de usar reservas do BC para o pagamento da dívida pública que vence em 2010.


Nos últimos dias Redrado deu sinais de que não concordava com o “Fundo Bicentenário”, um projeto do ministro da Economia, Amado Boudou, homem de confiança da presidente Cristina, que pretendia usar as reservas do BC para o cancelamento da dívida de US$ 6,5 bilhões relativos a títulos da dívida pública que vencem neste ano.

O uso das reservas provocaria uma redução das reservas do BC dos atuais 47,98 bilhões para US$ 41,48 bilhões.

No entanto, a irritação da presidente Cristina teria aumentado de forma exponencial quando nesta quarta-feira de manhã foi confirmado que Redrado se reuniria com dois importantes líderes da oposição, o senador Gerardo Morales e o deputado Ernesto Sanz, da União Cívica Radical (UCR).

Ambos parlamentares haviam pedido uma reunião com Redrado para saber se o presidente do BC oporia-se categoricamente – ou não – ao uso das reservas para o pagamento da dívida pública.

Perante a resistência de Redrado, o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández - braço-direito da presidente Cristina Kirchner na área política - acusou Redrado de “pouco sério”, já que em diversas ocasiões o presidente do BC disse que seu cargo estava à disposição da presidente.

Fernández, irritado, exclamou: “a única que toma decisões (sobre política econômica) é a presidente!”.

O nervosismo começava a tomar conta dos mercados em Buenos Aires, já que o impasse volta a gerar dúvidas sobre a capacidade de pagamento da Argentina dos bônus da dívida. Os economistas na city financeira indicam que sem o uso das reservas do BC, o governo Kirchner terá que resignar-se a “moderar” o crescente gasto público.

MINISTRO

O ministro da Economia, Amado Boudou, em uma breve coletiva de imprensa, afirmou que a política econômica é definida pela presidente Cristina Kirchner. Segundo ele, “vamos continuar adiante com a mesma política de sempre”, disse, em alusão à ideia de usar fundos do BC para pagar a dívida que vence neste ano.

Boudou ressaltou que em diversas ocasiões Redrado disse à presidente Cristina que sua renúncia estava à disposição do governo. “Desta forma, hoje (o chefe do gabinete de ministros) Alberto Fernández a aceitou”, disse Boudou, em alusão às declarações que Redrado fez no passado sobre sua disponibilidade.

“Por isso, não coloque ‘paus na roda’ (expressão argentina para atravancar alguma ação)!”, afirmou Boudou, em sinal de alerta a Redrado.

REVÉS

Redrado, desde que assumiu o cargo em 2004, concordou – sobriamente - com a maior parte das políticas econômicas do casal Kirchner. Em 2005 apoiou a polêmica reestruturação dos títulos da dívida pública com os credores privados que estavam em estado de calote desde dezembro de 2001.

Por este motivo, a firme decisão de permanecer em seu posto adotada por Redrado, conhecido por ser costumeiramente dócil aos pedidos da presidente Cristina, seu low profile e o costume de evitar confrontos - consiste em um duro revés ao governo da presidente Cristina.

De quebra, seria a segunda rebelião de peso que seu governo sofreu em dois anos no poder. A primeira rebelião foi protagonizada pelo vice-presidente Julio Cobos em julho de 2008, quando passou para a oposição e derrubou com seu voto de Minerva no Senado (os vices argentinos são os presidentes do Senado) o polêmico projeto de lei do governo de “tarifaço agrário”.

Cobos, apesar das pressões, não renunciou, constituindo-se desta forma em um “vice rebelde”. De quebra, sua rebeldia contra os Kirchners tornou Cobos – antes desconhecido do grande público – a figura mais popular da Argentina. O vice atualmente é o principal presidenciável da oposição para as eleições de 2011.

Além dos dois reveses, protagonizados por ex-aliados, o casal Kirchner sofre uma acelerada perda de poder, principalmente desde a posse do novo Parlamento, em dezembro, onde o governo será a primeira minoria na Câmara de Deputados e no Senado.

A crise entre a presidente Cristina e Redrado também ressalta a marca de intervencionismo do governo argentino. Ao longo dos últimos meses a presidente Cristina e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, atualmente deputado, tentaram limitar o poder dos meios de comunicação por intermédio de uma polêmica lei que restringe a atuação da mídia; impuseram pesados impostos ao setor agrícola, reestatizaram de forma irregular a empresa Aerolíneas Argentinas e o sistema de aposentadorias, entre outros.

INDEPENDÊNCIA

O economista Aldo Abram sustentou que a presidente Cristina não pode exigir a renúncia de Redrado, “já que o Banco Central é independente”. Segundo Abram, Redrado conseguiu o respeito por parte dos mercados internacionais. “E, neste caso, seria muito negativo sua remoção, já que a Argentina não se caracteriza especialmente por ter um currículo de bom comportamento com os mercados...”, ressaltou com ironia.



Estadão

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