terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Haiti: Desespero...

Desespero - População de Cite Soleil luta para pegar água de uma tubulação que rompeu próximo à área portuária de Porto Príncipe


Uma semana após o terremoto que devastou o Haiti, apenas 9% do dinheiro pedido pela Organização das Nações Unidas (ONU) chegaram de fato até ontem aos cofres da entidade para repasse imediato ao país caribenho. A ONU pediu US$ 575 milhões e recebeu US$ 51 milhões.

Depois do dinheiro, o principal problema é a administração do aeroporto de Porto Príncipe, realizada pelos EUA, e a disputa entre países pelo controle das operações. A França, por exemplo, exige que a ONU defina o papel dos Estados Unidos e diz que "ajudar não é ocupar".

O resultado dos obstáculos tem sido uma limitação da ajuda ao país. "Não há sinais de uma distribuição significativa de ajuda", afirmou a entidade Médicos Sem Fronteira.

Ontem, a União Europeia anunciou a liberação do equivalente a US$ 616 milhões para o Haiti. Em euros, a doação foi assim dividida: 122 milhões em ajuda humanitária urgente, 107 milhões para a reconstrução imediata e mais 200 milhões para projetos de médio e longo prazos.

Na sede da ONU em Genebra, funcionários afirmam que há uma diferença entre promessas e depósitos. Além disso, a queixa é de que governos têm preferido usar o dinheiro em projetos individuais, e não em cooperação com a ONU. "O risco é de que, ao termos um projeto separado, acabaremos vendo uma duplicidade do trabalho", afirmou ao Estado a porta-voz da ONU para Assuntos Humanitários, Elizabeth Byrs.

Nos bastidores da entidade, a cúpula está surpresa com a falta de resposta ao seu apelo por dinheiro. "15 dias depois do tsunami, 90% do dinheiro que pedíamos já estava depositado. Vamos ver o que ocorre com o Haiti", afirmou a porta-voz.

No setor de alimentos, a ONU pedia US$ 246 milhões. Recebeu apenas US$ 19 milhões. Em saúde, o pedido era de US$ 82 milhões e recebeu US$ 2,2 milhões. Em vários itens, a conta da ONU ainda está vazia, como moradia.

Na segunda-feira, governos e a ONU devem realizar em Montreal uma conferência de doadores para tentar garantir que o volume de recursos aumente. O primeiro-ministro do Haiti, Jean Max Bellerive, se reunirá com chanceleres de todo o mundo para discutir novas doações. E, no dia 11 de fevereiro, a UE realiza uma reunião de cúpula para tratar da situação no Haiti, em mais uma tentativa de não deixar o jogo político apenas nas mãos dos americanos. "Decidi elevar a situação no Haiti ao mais alto nível político", afirmou Herman Van Rompuy, novo presidente da UE.

Outra entidade também está com seus cofres vazios. A Organização Internacional de Migração havia pedido US$ 30 milhões. Por enquanto, recebeu apenas US$ 8,5 milhões.

AEROPORTO

Para a entidade Médicos Sem Fronteira, o principal obstáculo é o aeroporto de Porto Príncipe, comandado pelo governo americano. Materiais são recusados e a entidade teve de aterrissar seus equipamentos na República Dominicana. O atendimento à população necessitada atrasou em mais de 24 horas.

O Programa Mundial de Alimentaçao da ONU também criticou as prioridades de pouso. A queixa é que tem sido dada preferência a aviões americanos e de militares. No fim de semana, o governo francês reclamou do problema.

REUNIÃO DE DOADORES

O Canadá será sede de uma cúpula de chanceleres sobre a reconstrução do Haiti após o terremoto da última semana. O encontro entre países doadores foi agendado para segunda-feira, em Montreal.

Entre os participantes da cúpula estarão Haiti, EUA, Canadá, França, Brasil, assim como outros países da América Latina.


Estadão

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