segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Lula e a chuva em São Paulo


Chove há 34 dias em São Paulo. Sem um miserável diazinho de folga, nada! Não chove assim em janeiro há imodestos 77 anos. Assim, se algum paulistano — na verdade, morador de qualquer das cidades da Grande São Paulo — tem a sensação de que nunca experimentou nada parecido, a impressão corresponde à verdade. E os que têm idade para lembrar o que aconteceu em 1933 certamente não guardam fatos relacionados a enchentes na memória.

O leitor de São Paulo sabe como está se comportamento certa imprensa paulistana. Considera irrelevante a excepcionalidade das chuvas e responsabiliza a administração “demo-tucana” (como ela escreve, com preconceito evidente) pelas tragédias. Cidades da região metropolitana administradas pelo PT, por exemplo, onde, infelizmente, também morrem pessoas, como se nota, não entram nessa categoria. Mas e daí? A campanha eleitoral já começou. Esses setores da imprensa apenas replicam o que vai pelos blogs petistas, que transformam cada vítima da enchente num ativo eleitoral. Adiante.

Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, homenageou hoje o presidente Lula e o governador Serra com a medalha 25 de Janeiro por ocasião do aniversário da cidade. E Lula, claro!, discursou. Leiam a sua fala, conforme registra O Globo Online:
“É preciso tentar oferecer uma solução para melhorar essa situação. Todo ano tem enchente em São Paulo. Vamos lançar o novo PAC para o período de 2011 a 2015 e quero me reunir com o governador de São Paulo e com o prefeito da cidade para discutir quais serão as obras prioritárias nesse sentido (…). Sabemos que o problema das enchentes não é exclusivo do prefeito. Já tivemos várias administrações aqui, inclusive do PT, e é um problema recorrente. É preciso unir esforços para resolver essa situação “

Lula, como de hábito, temperou a fala com memórias pessoais:
“Cheguei em São Paulo pela primeira vez há mais de 50 anos. O primeiro lugar em que morei aqui foi na vila Carioca (zona sul). Sofri muito com a enchentes lá. Depois decidi me mudar para a Ponte Preta, na divisa com São Caetano. Lá passei por três outras enchentes, com até 1,5 metro de água dentro de casa. Em seguida, me mudei para a Vila São José, em São Caetano. Também alagava. Só depois que eu fui para o Parque Bristol (zona sul), que era um lugar alto, é que me livrei das enchentes”.

Volta e meia me refiro aqui à inteligência política do líder petista, e alguns leitores protestam. Fatos são fatos. Observem que ele, dados os desastres que acometem a cidade, evita a polítização explícita do problema, o embate propriamente partidário — isso fica por conta dos petistas e daquele jornalismo — e oferece “ajuda”. Qual? Incluir obras contra enchentes no PAC para o período 2011-2015. Não existindo o PAC 1, ele pretende colaborar com a cidade oferecendo o auxílio do PAC 2, que é só uma peça de propaganda da candidatura Dilma.

Lula sabe das coisas. Está ciente de que os setores da imprensa a que me referi e seu partido continuarão a partidarizar os dramas vividos pela cidade. Ele não precisa se entregar a esse tipo de especulação. Oferece ajuda — e, a partir de agora, pouco imposta se ela virá ou não; ele já fez a sua parte — e mostra que pode ser magnânimo.

Kassab, que concedeu a medalha, faz o jogo do contente:
“Os desafios são grandes e temos que fazer esforços para superá-los. O compromisso do presidente de incluir obras de drenagem para São Paulo entre os anos de 2011 e 2015 mostra que ele tem compromisso com a cidade, e foi isso que fez que ele recebesse a medalha que foi oferecida hoje” .

Talvez espere uma trégua concedida pelo partido de Lula e pela imprensa de Lula, que sustentam que as enchentes são culpa da “administração demo-tucana”.

Trégua que não virá.



Reinaldo Azevedo

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