quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Estado aparelhado do PT


Em outubro, uma turma do PC do B promoveu um encontro preparatório para a Confecom — a tal Conferência de Comunicação de Franklin Martins. O vídeo abaixo reproduz alguns minutos do evento. Como vocês sabem, o governo costuma afirmar que suas conferências são antecedidas de um intenso debate. Debate? Digamos que os iguais se reúnem para aparar algumas arestas. Vejam o filme abaixo antes de ler o que segue ou deixem o vídeo carregando, leiam o artigo e voltem a ele depois.


Este senhor que fala primeiro é o empresário Joaquim Ernesto Palhares, dono do site esquerdista Agência Carta Maior. Anunciantes oficiais se sucedem na página. O da hora é o Ministério do Desenvolvimento Agrário!!! Palhares não é o único: as publicações de esquerda e uma penca de blogs governistas recebem dinheiro público. Para repassar, por exemplo, recursos a blogueiros amigos, há até uma rubrica no governo federal chamada, acreditem, “Democratização do Acesso à Informação Jornalística, Educacional e Cultural”. Sigamos.

Vamos ver o que diz o Palhares - e não deixo aqui de dar um risinho de canto de boca. Como não lembrar de um dos famosos tipos de Nelson Rodrigues, né? Palhares, o do Nelson, não o da Carta Maior, era o “canalha que não respeitava nem a cunhada”. Uma coisa é certa sobre este outro Palhares: ele não respeita a nossa inteligência. Transcrevo um trecho de sua fala naquele encontro:
“Num governo tucano, eu tenho a impressão que Carta Maior, os blogs [ele se refere aos blogs que prestam serviços ao governo] e Carta Capital estão fadados ao fechamento. (…) Na minha visão de empresário, não na minha visão de militante político, mas na minha visão de empresário, O IMPORTANTE SERIA METER A MÃO NO BOLSO DELES [ele se refere ao bolso dos grandes empresários da comunicação] para fortalecer o campo da mídia popular e progressista, para dar emprego aos estudantes de comunicação que, neste país, é um número absurdo e, hoje, não têm onde trabalhar, e nós estaríamos com isso fortalecendo o próprio debate. Porque, se nós tivermos várias pequenas empresas, várias pequenas iniciativas, individuais ou coletivas, COM RECURSOS PARA PODER FAZER UM TRABALHO ADEQUADO, eu tenho a impressão que o debate principal começa a tomar corpo. Este debate que só começa no sétimo ano do governo Lula. Se a Dilma for eleita, talvez a gente possa fazê-lo nos próximos oito anos e, aí sim, chegar a alguma conclusão”

Graaande Palhares! Pena Nelson não ter vivido tanto!…

Como se vê, sem o dinheiro público, o jornalismo “independente” que eles fazem (não sei se consegui ser espirituoso) não teria lugar. Eu até tranqüilizo o Palhares: o PSDB é tão viciado em entender o adversário, meu senhor, que, caso vença a eleição, o mais provável é que os sem-leitores recebam ainda mais verba. Só para provar que não há preconceitos…

Palhares atinge o sublime quando decide fazer uma sugestão “COMO EMPRESÁRIO”. E, como empresário, ele acha que o “O IMPORTANTE SERIA METER A MÃO NO BOLSO” dos outros empresários, os grandes. Segundo entendi, o dinheiro que seria roubado dos grandes — uso “roubado” porque me parece um sinônimo denotativo para “meter a mão no bolso” — seria passado aos pequenos. E Palhares, COMO EMPRESÁRIO, NÃO enquanto um sujeito bem pançudo, é um dos pequenos… O curioso é que ele reclama, numa passagem que nem transcrevi, mas que está ali no vídeo, que os grandes tenham decidido se retirar da Confecom… Vai ver estavam protegendo o bolso da sede expropriadora do Palhares…

E por que ele quer tirar dos grandes para dar aos Palhares? Ah, porque o debate principal tomaria corpo. O “DEBATE PRINCIPAL”, se não sabem, é justamente como acabar com os grandes… SE DILMA GANHAR, ELES ESPERAM REALIZAR A SUA GRANDE ARTE. Dilma? Sim, é aquela senhora que vai disputar a Presidência pelo PT e que é a principal responsável por aquele decreto dos supostos direitos humanos que pretende instituir a censura à imprensa. Viram como as coisas fecham?

Pequenas diferenças
Na seqüência de fala de Palhares, há alguns encaminhamentos da mesa etc, e a palavra passa para um sujeito chamado Venicio Artur de Lima, do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília. Sempre a gloriosa UnB, onde também há bons e valentes. Ele tenta explicar a um dos presentes o que quer dizer “controle social da mídia”. Pensador ousado, pesquisador profundo, ele logo remete a pessoa que fez a pergunta a uma definição dada pelo… MEC!!! O doutor consegue — e a platéia deu-se por satisfeita e até aplaudiu — destroçar o conceito de “accountability“, para ele sinônimo de “controle social”, expressão usada pelos esquerdistas do calcanhar sujo para tentar submeter a sociedade ao controle da militância política.

Homens que exercem cargos públicos devem prestar contas, numa democracia, às instâncias que o regime democrático estabelece como competentes para tanto — e todas eles nascem de um forma legítima E LEGAL de representação. Os ditos movimentos sociais e ONGs — no Brasil, nada menos do que braços de um partido políticos e seus satélites (como todos que compunham aquela mesa) — não têm legitimidade para ditar, como pretendem, o rumo das políticas públicas. Como aquela porcaria de suposto Programa de Direitos Humanos deixa claro, para essa gente, “accountability” compreende do monitoramento editorial dos veículos à cassação de concessões. Desafio este senhor a escrever um texto teórico — em vez de falar para ser aplaudido por pessoas mais ignorantes do que ele próprio — desenvolvendo o conceito que ele enunciou.

Mas nem todo mundo no PT e assemelhados, infelizmente, é idiota. Há também os inteligentes — errados, mas inteligentes. É o caso de Bernardo Kucinski, que está na ponta da mesa e fala por último nesse vídeo. Militante de esquerda de velha cepa, professor de jornalismo da USP, responsável pelo “monitoramento da mídia” na campanha de Lula à Presidência em 2002 e depois uma espécie de ombudsman do governo por algum tempo, não se deve cometer o erro de achar que ele queira uma sociedade muito diferente daqueles que estão ali. Ocorre que é muito mais perspicaz do que todos os outros somados e elevados ao quadrado. E o que diz Kucinski?

“Eu levantei a crítica a essas expressãoes como ‘controle social’ e ‘democratização da mídia’ porque, em primeiro lugar, eu acho que elas refletem uma visão defeituosa do problema, na origem, uma fuga do problema, que é a nossa própria incapacidade de criar comunicação. É evidente pra mim que essas duas expressões não são adequadas, independentemente disso. A expressão “democratização da comunicação” não permite o foco correto. Primeiro, a comunicação já está democratizada por essa revolução digital. Sgundo, ela não distingue veículos impressos de meios eletrônicos, e essa é a distinção fundamental”.

Comento
Se não soubesse qual é a dele, até poria sua fala em azul… Pobre Bernardo! Se os que dão as cartas hoje nesse debate chegassem ao poder, ele iria para o paredão, acusado de traição e falta de convicção socialista, embora seja um autoritário mais consistente do que os outros porque sabe pensar — ainda que do lado que considero essencialmente errado. O ambiente foi tomado por chicaneiros, como resta evidente, que estão interessados em bater a carteira do dinheiro público. ESQUERDISTA MESMO É KUCINSKI. Os outros são oportunistas. É claro que, no particular, ele está certo: a revolução digital pôs a informação ao alcance de praticamente todo mundo que seja alfabetizado.

No trecho do debate que não postei, Kucinski expõe a diferença entre veículos impressos, que não dependem de concessão, e os eletrônicos, que dependem etc. De todo modo, ele rejeita a expressão “controle social” porque sente, de antemão, o cheio de carne queimada. Mas os radicalóides, que devem matar o velho militante de tédio, transformaram a expressão num fetiche. E, com sua retórica cheia de bazófia, anula a voz da experiência. O que eu digo? Felizmente, eles são burros o bastante para não dar bola para Bernardo Kucinski. Os chicaneiros não deixam de ser úteis…

Voltando
Quero voltar ao Palhares, aquele que quer “METER A MÃO NO BOLSO DELES”. Segundo o pançudo, tudo precisa ser feito para “fortalecer o campo da mídia popular e progressista”. Pergunto: se é popular e progressista, onde está o povo leitor, o povo telespectador, o povo ouvinte? Hoje, as esquerdas dispõem de meios e dinheiro como jamais. Cadê o público. O diabo é que eles são chatos, são cafonas, são ignorantes, são mistificadores, são trapaceiros, são embusteiros, muitos são vigaristas, verdadeiros batedores de carteira. Eles padecem de uma congênita “incapacidade de produzir comunicação”, como diria Kucinski. Não lhes falta nada, a não ser talento!

Ora, diabos! Façam a sua TV Globo, façam a sua VEJA, façam o seu Estadão, o seu O Globo, a sua Folha… Franklin Martins pediu uma TV de presente. Ganhou, junto com quase R$ 700 milhões por ano. Conseguiram reduzir à metade aquele pontinho no Ibope que tinha a antiga TVE. Por quê? Porque não sabem a diferença entre notícia e doutrinação, entre entretenimento e doutrinação, entre programa infantil e doutrinação… Embora se digam amigos do povo, têm por ele um solene desprezo e estão sempre prontos a educá-lo, a livrá-lo de sua falsa consciência. A maioria de seus sequazes escreve mal, pensa mal, é de uma espantosa ignorância. É por isso que reivindicam com tanta energia um cartório, que tentam censurar os “adversários”, que resolvem tachá-los de reacionários ou sei lá o quê.

Disfarçam, com sua linguagem virulenta, seu complexo de inferioridade. Vejam o caso da tal Carta Maior, aquela ora financiada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Uma de suas peças de resistência é Emir Sader, do planeta mental Emirados Sáderes. O sujeito não sabe estabelecer a paz entre o sujeito e seu predicado sem que, freqüentemente, vírgulas alcoviteiras se metam na relação, isso quando o subjuntivo, coitado!, não é expulso da folia gramatical, ficando do lado de lá da cerca, só observando aquela celebração de indicativos em desalinho.

Mas Palhares quer “METER A MÃO NO BOLSO DELES”. Não é dinheiro que falta ao Palhares. O que falta ao Palhares é ter o que dizer. O que falta ao Palhares é LEITOR!!! Eu, “impopular” como sou, se quiser, loto um estádio. Ele, “popular” como é, não lota uma Kombi.

E existe ainda outra diferença. Não quero meter a mão no bolso de ninguém.



Reinaldo Azevedo

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