quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Imperador do Brasil

PORTO ALEGRE - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou nesta terça-feira, 26 que visitará o Haiti no próximo dia 25. Em discurso no Fórum Social Mundial, na capital gaúcha, ele pediu às organizações de esquerda que ajudem na reconstrução do país atingido por um terremoto no dia 12.

No debate com organizadores do Fórum, que queriam a opinião de Lula sobre a presença "excessiva" de tropas americanas no Haiti, o presidente evitou fazer qualquer comentário. Em seguida, Lula criticou as invasões de franceses e norte-americanos no Haiti desde a independência em 1804. Ele chegou a dizer que o "mundo desenvolvido" era responsável pela miséria do país.

Lula criticou os países desenvolvidos que não repassaram os "bilhões de dólares" prometidos ao Haiti antes do terremoto. "O dado concreto é que esse terremoto mexe com a vergonha dos seres humanos que governam o mundo", disse. Ele ainda aproveitou para elogiar a atuação dos militares na força de paz da ONU que está no Haiti.

Lula também sugeriu que as organizações que participam do Fórum Social Mundial tomassem a decisão de declarar um ano de solidariedade entre todos seus participantes, no período compreendido entre as edições do evento, pela reconstrução do Haiti. O presidente calculou que, dentro de possivelmente 30 dias, será instalada no Haiti uma unidade de pronto-atendimento.

Lula indicou que a sugestão ao fórum seria uma maneira de aproveitar a participação das organizações envolvidas no evento para extrair propostas concretas. "Não tem nada pior que terminar uma reunião com esta, fantasticamente representativa, com aquilo que tem de melhor nos movimentos sociais, com um catatau que a gente coloca na mesinha de cabeceira ou na gaveta da sala e termina não produzindo os efeitos das coisas boas que vocês cultivaram num fórum como esse", disse.

Mudanças nítidas

Em sua última participação no Fórum Social Mundial realizado no seu governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conseguiu disfarçar mudanças nítidas no discurso do início do mandato e as divergências que se acentuaram com setores da esquerda nos últimos anos.

Em janeiro de 2003, nos primeiros dias no governo, ele disse a pensadores, estudantes e "bichos grilos" num teatro aberto nas margens do Rio Guaíba que o ex-presidente Fernando Collor tinha perdido o mandato em 1992 por "roubalheira", prometeu que os pobres não morreriam mais nas filas de hospital e avaliou que faria "o governo mais honesto que já houve na história deste País".

Na noite desta terça, representantes do MST, uma das entidades promotoras do evento, não compareceram ao Ginásio do Gigantinho, onde Lula faria o discurso. Os sem-terra e representantes de partidos como PSTU optaram por boicotar a "festa" do presidente.

Em conversas reservadas, muitos "radicais" observaram que o Lula que subiu no palco do ginásio é agora aliado do senador Fernando Collor no Congresso, não esconde que a área da saúde é um ponto fraco do governo e deixa como marca ruim as denúncias do escândalo do "mensalão", que levou para o banco dos réus ministros e pessoas influentes do Planalto e do PT, em 2005. "Sabemos que há diferenças fundamentais entre o que um governante sonhou a vida inteira e o que conseguiu realizar", disse Lula.

Lula afirmou que, depois de dez anos de criação, o Fórum continua "intacto". Para quebrar o gelo, fez críticas ao Fórum Econômico de Davos, onde estará na próxima quinta-feira. "Tenho consciência de que Davos não tem mais o glamour que eles achavam que tinha em 2003", afirmou. Cerca de sete mil pessoas estiveram no Gigantinho. Muitos participantes não esperaram o presidente terminar o discurso e deixaram o ginásio antes.

Em um dos poucos momentos de descontração, Lula chamou a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, de "Dilminha", lembrando da presença dela na Conferência do Clima, em Copenhague, em dezembro. A plateia presente reagiu positivamente, gritando o nome da candidata do PT à Presidência. Um grupo chegou a adaptar um jingle de campanha de Lula - "Olê, olé, olá, Dilma, Dilma".

Bandeiras

Lula participou da primeira edição do Fórum em 2001, quando ainda não estava no poder. Como presidente, esteve nas edições de 2003 e 2005 em Porto Alegre e na do ano passado, em Belém. Quando esteve na capital gaúcha no seu primeiro ano de governo, ele abriu o discurso, nas margens do Rio Guaíba, com um insólito pedido para a plateia: "Será que é pedir demais que os companheiros enrolassem as suas bandeiras? Acho que enrolar a bandeira cinco minutos não pesa nada".

Sete anos depois, a frase parece uma metáfora da situação de Lula e do Fórum, observam assessores. Os próprios participantes do evento admitem que o pragmatismo do presidente na economia e na sua polêmica política de alianças garantiu a ele a condição de cabo eleitoral mais importante do processo sucessório de 2010.

Com 83% de aprovação segundo pesquisa de opinião, o presidente reencontra um Fórum Social Mundial sem o brilho de antes. Ainda assim, ele não perderá a oportunidade de fazer campanha para os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Tarso Genro (Justiça), que disputam a Presidência e o governo do Rio Grande do Sul, respectivamente.

Um dos organizadores do Fórum, Oded Grajew, que já assessorou o presidente, avalia que o "grande pecado" do governo Lula foi o fato de não levar à frente a questão da reforma política. Grajew não poupa nem mesmo os grupos que compõem o evento que se intitula como alternativa ao "capitalismo liberal".

"As organizações sociais não foram suficientemente fortes para promover a reforma política. Como Lula tinha prometido fazer a reforma, talvez elas ficaram acomodadas, na promessa", diz Grajew. "Não foram sábias para perceber as origens das coisas", completa. Grajew ressalta que as atenções da chamada esquerda foram diluídas em discussões menos relevantes.

O sociólogo Emir Sader observou que o Lula que volta a Porto Alegre dispõe de números importantes para apresentar, citando como exemplo o aumento do número de empregados com carteira assinada e a recuperação econômica do País depois da crise financeira internacional. "O povo não pagou o preço da crise", diz. Para o sociólogo, o governo "melhorou" com a saída do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, em 2006. "O eixo do governo passou a ser a ministra Dilma."


Estadão

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