quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O salvo-conduto de Lula

O Estado de S. Paulo - 28/01/2010

Se o mote do Fórum Social Mundial (FSM) é "Outro mundo é possível", o do presidente Lula bem que poderia ser "Todos os mundos são possíveis". Os políticos convencionais de qualquer latitude, como se sabe, estão sempre prontos para dar o dito pelo não dito ou para dizer uma coisa e fazer outra, tendo sempre pronta também uma alegação, ou enrolação, que justifique as suas guinadas. Às vezes, pega, às vezes, não ? e, nesse caso, o zigue-zague será punido nas urnas. Com Lula é diferente. Decerto ele é o único líder democraticamente eleito da atualidade a desfrutar de uma espécie de salvo-conduto que lhe permite, diante dos mais diversos públicos, trafegar sem restrições pelos mundos da retórica, dizendo uma coisa e o seu contrário, construindo verdades de ocasião e exercendo, como já se apontou, o seu notável talento para a quase-lógica.

No devido tempo, os historiadores, sociólogos e cientistas do comportamento tratarão de dissecar as origens dessa imunidade adquirida pelo singular dirigente brasileiro e a sua consolidação nos anos recentes. Ao observador do cotidiano cabe registrar a desenvoltura com que Lula se entrega à sua arte e o deslumbramento das plateias que, a julgar por sua reação, devem se considerar privilegiadas pela oportunidade de assistir ao espetáculo. É o caso do show de 50 minutos que ele protagonizou anteontem para cerca de 7 mil embevecidos participantes da 10ª edição do Fórum Social Mundial, reunidos no Ginásio do Gigantinho, em Porto Alegre. Com exceção dos puros e duros do PSOL e de ajuntamentos como o PSTU, a esquerda superou com galhardia o desconforto que levou parte dela a vaiar o presidente no fórum de 2005 ? quando rebentou o escândalo do mensalão.

A grande maioria comprou com indisfarçado alívio a teoria lulista de que tudo não passou de uma conspirata da mídia e da oposição para derrubá-lo do Planalto. Além disso, cada vez mais compreensiva com o seu ídolo, e tendo se despojado dos escrúpulos de consciência de outrora, não será agora que a esquerda irá cobrá-lo pelas profanas alianças que celebrou com figuras como o senador José Sarney e o ex-presidente Fernando Collor, de quem disse no fórum de 2003 ter perdido o mandato por "roubalheira". Afinal, para tornar possível o outro mundo de suas aspirações, eis o raciocínio reconfortante, não raro é necessário compactuar com o que este tem de pior. Não se dizia que os fins justificam os meios? E não foi o próprio Lula quem disse que, se estivesse no Brasil, Cristo teria de se aliar a Judas?

Um dos mais formidáveis atributos do presidente é a sua sensibilidade para os públicos a que se dirige. Ele navega por eles de olhos fechados e chega onde quer ? a intuição dispensando a bússola. Em Porto Alegre, como quem pede desculpas, mas fazendo jus astutamente à indulgência plena recebida, observou: "Sabemos que há diferenças fundamentais entre o que um governante sonhou a vida inteira e o que conseguiu realizar." Deliciou ainda a audiência comparando o FSM com a sua abominada antítese, o Fórum Econômico de Davos. O fórum social, louvou, continua "intacto" depois de 10 anos. Já o outro "não tem mais o glamour que eles achavam que tinha".

Com isso passou batido por um detalhe: amanhã, nesse santuário onde se cultua a exploração do homem pelo homem, Lula será contemplado com o prêmio "Estadista Global" de 2009. Nada que deva deixar estomagado o pessoal do outro mundo. O presidente aproveitará o momento para tornar a dizer algumas verdades aos "loiros de olhos azuis" que o homenagearão. Como antecipou o Planalto, defenderá a reforma do sistema financeiro, a conclusão da Rodada Doha de liberalização do comércio e uma reforma abrangente da ONU ? codinome para a ambição por um assento permanente em um Conselho de Segurança ampliado. Assim como nenhum radical o censurou em Porto Alegre, nenhum adorador do mercado deixará de aplaudi-lo em Davos, quanto mais não seja por polidez.

O salvo-conduto com que Lula circula tem uma página que ele não cessa de abrir: a que o autoriza a fazer descarada campanha antes da hora para a sua candidata Dilma Rousseff, a "Dilminha", como falou dela no FSM. Em 2011, palanqueou, no seu lugar estará "uma pessoa com o mesmo compromisso e talvez com mais capacidade para anunciar ao País as coisas que têm que ser feitas daqui para a frente".

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