segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Porque a Lei é diferente para alguns terroristas?


Com quantas réguas eu meço a realidade? Com uma só. O Brasil extraditou para a Argentina o coronel reformado uruguaio Juan Manuel Cordero Piacentini, 71 anos. Ele é acusado de integrar a Operação Condor e de ter torturado e matado. O que eu acho disso? Um facínora a menos no Brasil. E que se cumpram as leis lá e cá.

Tarso Genro certamente não diria que Piacentini cumpriu seus crimes, como é mesmo?, no “contexto dos anos de chumbo” e que, afinal, tratava-se de ações políticas. Essa régua para medir a realidade vale apenas quando o criminoso é um companheiro da esquerda, como o terrorista italiano Cesare Battisti.

Alguns leitores — pouco, felizmente! — enviaram comentário mais ou menos assim: “Se Battisti fica, então por que Piacentini não pode ficar?” Nada disso! A minha leitura é outra: se o coronel foi, então por que o terrorista italiano não pode ir?” Nessa hora, é preciso evidenciar que os nossos valores são — e felizmente são! — diferentes dos valores deles. Piacentini e Battisti são flores distintas do mesmo mal.

“Ah, mas ele está sendo punido, né? E por que você combate a revisão da Lei da Anistia?” Porque é inconstitucional e porque o Brasil encontrou o seu próprio caminho, com uma história muito diferente — e pouco me importa o que dizem os trapaceiros — da que havia em outros países sul-americanos. Já expliquei aqui: anistia não é absolvição; anistia é um processo de negociação política.

Extraditar Piacentini e tentar manter Battisti são manifestações de canalhice ideológica e relativismo moral; corresponde a dizer que um dos lados da luta política tem licença para matar; que o que torna o crime hediondo é a qualidade do assassino e da vítima. Trata-se de um “raciossímio” curioso: por ele, não existem crimes, mas apenas criminosos. E criminosos são sempre os “inimigos”.

“Ah, mas Piacentini atuava em nome de ditaduras, numa estrutura paramilitar!” E daí? Battisti atuou como terrorista num estado democrático. O que é melhor? É tudo pior!

Esta é uma de nossas muitas diferenças: a minha, vá lá, ideologia não abraça nem assassinos contingentes; a deles pressupõe os assassinos necessários. Somos tataranetos de Tocqueville. Eles são netos de Lênin. Queremos a sociedade dos iguais, contra os privilégios; eles querem os privilégios dos iguais contra a sociedade.



Reinaldo Azevedo

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