quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Uma reflexão sobre desastres anunciados.



Durante a virada do ano de 2009 para 2010, no Estado do Rio, a chuva fez mais de 40 vítimas.

Este já é um roteiro antigo, que a cada ano é refilmado com outros atores.

Quando vem o período das chuvas, encostas derretem, baixadas ficam submersas, pessoas morrem e contabilizam-se prejuízos.

Ato contínuo, as autoridades dão entrevistas comoventes e se portam como se fossem vítimas atônitas, disseminando desinformação para confundir fatos. Com isso a tragédia fica em foco no primeiro plano e responsáveis se tornam invisíveis num plano perdido e desfocado.

Na realidade os responsáveis deveriam estar no primeiro plano, pois é graças a eles que desastres se tornaram uma rotina que mais parece um destino inexorável.

A dinâmica da negligência ou omissão é simples. O governo permite que a ocupação desordenada avance, seja ela orquestrada por pobres ou ricos. Assim pobres garantem votos e ricos gordas contribuições para o caixa de campanhas eleitorais. Quando o desastre ocorre todo jogo se inverte. Defesa Civil, bombeiros e obras emergenciais entram em cena e os verdadeiros responsáveis saem ilesos ou até como heróis que não mediram esforços para prestar socorro e solidariedade às vítimas.

A chuva é um exemplo típico desta prática tão inconsequente quanto esperta, na medida que transfere todas as responsabilidades de pessoas que deveriam fazer e não fazem, para deuses que são intocáveis, irrepreensíveis e principalmente, não concorrem à eleições.

Chover muito, como costuma ser dito em entrevistas, é uma expressão leiga e vaga, pois não utiliza referências que permitam gerar comparações ou mesmo avaliar a intensidade do fenômeno.

Tecnicamente a intensidade de chuvas é medida em mm/h (milímetros por hora). De acordo com a intensidade, as chuvas são classificadas em:

  • leve: 1,1 mm/h a 5 mm/h
  • moderada: 5,1 mm/h a 25 mm/h
  • forte: 25,1 mm/h a 50 mm/h
  • muito forte: > 50 mm/h

Além deste conceito, existe também o conceito de chuva acumulada. Esta pode ser considerada em quaisquer intervalos de tempo. As durações usuais são 5, 10, 15, 30, 45 e 60 minutos, 2, 3, 6, 12 e 24 horas, 1 mês, 12 meses e assim por diante.

A observação instrumentada de intensidade de chuva versus duração permite construir séries históricas. Estas levam a um conceito muito interessante que é o “tempo de recorrência”.

O conceito é relativamente simples e consiste em correlacionar intensidades de chuvas e seus respectivos tempos de duração com a frequência com as quais ocorrem ao longo do tempo.

Assim, cada cidade ou localidade tem uma equação que correlaciona intensidade, duração e freqüência.

Esta equação leva em conta a série histórica e permite gerar extrapolações que antevejam probabilidades muito além do período de observação do passado.

Desta forma é possível conhecer a probabilidade de ocorrência de diferentes chuvas ao longo do tempo.

No Rio de Janeiro esta equação se traduz pela expressão pouco amigável, porém muito útil, que segue.

Curva_chuva_Rio_R

onde:

  • i – é a intensidade média (mm/min) para a duração t da chuva;
  • t – tempo de duração (min) da chuva de intensidade i;
  • T – período de retorno (anos) da chuva de intensidade i e duração t.

Transformando esta equação num gráfico fica mais fácil interpretá-la.

04_01_10_Desastres_anunciados_e_a_culpa dos_deuses_Grafico_curvas_chuva_Rio

A partir deste gráfico tudo fica mais claro e algumas máscaras caem.

A leitura do gráfico permite saber que uma chuva com intensidade de 290 mm/min e duração de 5 minutos provavelmente só ocorrerá a cada 500 anos no Rio de Janeiro.

Por outro lado, chuvas com intensidade de 100 mm/min e duração de 10 minutos, são recorrentes e provavelmente ocorrerão pelo menos 1 vez por ano.

Dos gráficos se percebe aquilo que é intuitivo. Ou seja, quanto maior a intensidade e duração da chuva, tanto mais raro será o fenômeno.

Mas até agora só foi abordada a chuva como um simples fenômeno meteorológico.

Para que se possa falar em danos, é fundamental levar em conta o sistema que sofre o impacto da chuva.

Se por exemplo cair uma tromba d’água num deserto ou vazio demográfico, não haverá consequências mais sérias.

Se uma chuva intensa cair num centro urbano devidamente estruturado e preparado para absorê-la e amortecer o impacto, provavelmente os danos serão moderados.

Por outro lado, sistemas vulneráveis como cidades que cresceram sem controle ou planejamento, com infra-estrutura sub-dimensionada e encostas ocupadas de forma irregular poderão ser vítimas até de chuvas moderadas.

Como o custo de construção de sistemas invulneráveis é impraticável, foram criados critérios técnicos que procuram otimizar custo benefício.

A tabela a seguir mostra algumas construções e o tempo de recorrência para os quais são projetadas, segundo a literatura internacional.

Tabela

Estes números arrancam mais algumas máscaras de prefeitos, governadores e presidentes que diante de qualquer chuva que provoque desgraça, se apressam em classificar a tragédia como uma fatalidade ou vontade divina.

Se a microdrenagem de uma cidade é dimensionada para um período de 50 a 100 anos é provável que só venha a ficar sobrecarregada uma vez a cada 50 ou 100 anos, dependendo da premissa de projeto.

Além disso, o fato da drenagem não dar conta de drenar toda água não quer dizer necessariamente que ocorram danos.

Se as construções não forem vulneráveis à água e estiverem acima da cota de alagamento, é provável que os danos sejam restritos e de pequena monta.

Mas se houve ocupação desordenada com construções em áreas “non aedificandi” ou de risco, ou ainda alterações nas vazões de projeto pela impermeabilização de superfícies, o desastre é certo e os últimos a serem responsabilizados por tragédias são deuses, divindades e orixás.

Neste aspecto, sempre que ocorre um desastre, caberia ao Ministério Público questionar e responsabilizar àqueles que por omissão ou interesse permitiram toda ocupação de áreas que tecnicamente ou legalmente não podem ser ocupadas.

Não nos referimos apenas a Angra dos Reis, onde o desastre ganhou manchetes, pois Angra é uma amostra de um problema de dimensão nacional. O balneário de luxo é uma aberração que não resiste a uma fiscalização com base na legislação vigente que são o Código Florestal de 1965, da Política Nacional de Ambiente de 1981 e do Plano de Gerenciamento Costeiro de 1988.

Vamos muito além. A questão de chuvas e alagamentos é apenas uma das consequencias de políticas públicas irresponsáveis, negligentes, omissas ou criminosos.

Situação semelhante, onde mudam apenas os atores e as explicações técnicas, vivemos na segurança pública, na saúde pública e no ensino público.

Na segurança pública e na saúde pública o desastre tem dimensões muito maiores, pois o número de vítimas é absurdamente mais elevado. Mas autoridades se portam como se a tragédia quotidiana fosse um destino inexorável no qual não podem influir. A mídia por sua vez é omissa, pois da grande divulgação às consequencias que são dramas individuais daqueles que choram seus mortos, sem colocar em cheque os responsáveis.

No ensino a política equivocada não provoca desastres com mortes. Mas os prejuizos para a nação são incomensuráveis. O ensino decadente simplesmente nega um futuro digno ao cidadão e provocará nas próximas décadas uma carência de mão de obra bem formada que possa alavancar o crescimento econômico do país. Se hoje já existe carência e estamos importando técnicos da China, Alemanha e de outros países, como pretendem que o país cresca?

Enquanto o povo não tiver capacidade de questionar politicas públicas medíocres e de banir políticos tecnicamente e moralmente despreparados do cenário brasileiro, seremos todos eternas vítimas de desastres avisados, a chorar e enterrar mortos para aguardar nossa vez.

x-x-x

A título de registro, seguem hipóteses de alguns deastres avisados.

- Rota de aproximação do aeroporto Santos Dumont com manobras feitas a baixa altitude sobre a ponte Rio-Niterói (Presidente Costa e Silva). Um desastre aeronáutico envolvendo a ponte terá consequencias devastadoras e inaceitáveis. Haverá vítimas em massa e prejuizos econômicos de grande impacto para economia do Estado do Rio.

- Chuvas intensas com deslizamentos na Rio Santos, concomitantes com um incidente nas instalações de Angra 1 ou Angra 2. O plano de avacuação da cidade de Angra preve a utilização da Rio Santos. Caso esta esteja obstruída a evacuação será retardada, gerará pânico e possível contaminação da população com partículas radiotivas.

- O planeta passa por uma crise ambiental cujas consequencias ainda são desconhecidas. O homem está diante de uma experiencia nunca vivida e de um futuro incerto. Há indícios que o nível do mar está subindo, mas o assunto tem sido menosprezado pelas autoridades. No Brasil, deveríamos estar desenvolvendo estudos para adapatar a legislação de uso e coupação do solo ao cenário futuro mais provável. Se o nível do mar está subindo, é fundamental que o recuo de cidades litorâneas esteja sendo planejado de forma que nos próximos 50 recuemos para pontos acima da cota de alagamento.

- Profissionalização e unificação do crime organizado. Na área da segurança pública o governo tem agido de forma amadora. Com isso, o crime organizado está cada vez mais articulado e profissionalizado, caminhando para uma unificação. A continuidade dessa política desarticulada, privilegiando o confronto em detrimento da inteligência é um desastre anunciado que pode nos conduzir a uma situação semelhante à da Colômbia, onde existe um Estado paralelo com forte influência em parte do território.


OFCA

Lembrando 2008

A Região Sul do Brasil está sendo castigada por chuvas e muitas cidades não suportaram a quantidade de água.

Extensas áreas urbanas e rurais alagaram e literalmente desapareceram. Taludes romperam e estradas sofreram danos.

Parte da população perdeu tudo. Água potável e alimento se tornaram bens escassos.

Nas áreas onde há risco, a população foi evacuada deixando para trás bens e pertences.

Em seguida surgiu uma onda de saques e a reação do poder público é tímida para proporcionar a população o mínimo de assistência.

O número de mortos provavelmente passa da casa de centena e os prejuízos são incalculáveis.

As autoridades agem como se toda tragédia fosse algo inimaginável e inevitável.

A próxima cena serão as epidemias.

Esse é o roteiro típico de um desastre.

Sempre que ocorrem desastres conseqüentes de fenômenos naturais surge à pergunta: poderiam ter sido evitados?

Segue a resposta.

Primeiro é necessário entender alguns conceitos e definições.

Desastre.

Define-se desastre como sendo o resultado de evento adverso, que afete a rotina de uma população ou comunidade, que cause danos ou prejuízos de qualquer natureza e cujo restabelecimento da normalidade demande recursos além dos disponíveis.

O desastre decorre da materialização de um risco. Portanto é necessário que existam:

  • um fenômeno qualquer que gere uma ameaça;
  • elementos em risco com um grau de vulnerabilidade à ameaça e
  • a materialização do evento adverso com conseqüentes danos.

Assim, a chuva é um fenômeno natural que de forma isolada não representa risco ou ameaça, independente da intensidade.

Se a chuva cair numa área de deserto, não habitada, não haverá danos.

Para que se fale em ameaça e risco é necessário que se conheça o sistema que absorve o impacto.

Se o sistema é vulnerável àquela ameaça, o risco é elevado e os danos provavelmente serão extensos.

Assim se uma chuva intensa cair numa área onde o escoamento é precário, as casas são baixas e de madeira, é muito provável que a perda seja total.

Por outro lado existe uma rede de drenagem eficiente ou se as casas são construídas sobre pilotis, em concreto armado e dimensionadas de forma adequada, os danos serão mínimos.

Pelo exemplo percebe-se o mesmo fenômeno pode causar danos diferenciados no sistema, dependendo de sua vulnerabilidade.

Fases de um ciclo de desastre.

Além disso, existe o chamado ciclo do desastre que é dividido em 4 fases (em algumas doutrinas existem fases intermediárias). São elas:

  • prevenção;
  • preparação;
  • resposta;
  • recuperação;

Prevenção: essa fase é a mais importante e é permanente. Abrange uma série de medidas que visam diminuir a vulnerabilidade do sistema. Aqui é fundamental a ação do poder público, pois cabe a este implantar medidas, executar obras e fiscalizar a ocupação do solo. O ordenamento urbano é chave fundamental para reduzir a vulnerabilidade. Nessa fase também é desenvolvido todo planejamento para as fases seguintes. É importante que a população entenda que suas ações podem aumentar ou reduzir a vulnerabilidade do sistema.

Preparação: essa fase consiste de um conjunto de medidas direcionadas aos riscos que não podem ser tratados na fase preventiva. Estas medidas têm o objetivo de minimizar as conseqüências do impacto, facilitar a ação de resposta e recuperação.

Resposta: essa fase tem inicio após o impacto. Visa socorrer vítimas, confinar o desastre, evitando que tome proporções maiores.

Recuperação: tem inicio ainda dentro da resposta e visa recuperar a área afetada pelo desastre, reconduzido a comunidade à rotina.

Uma vez terminada a recuperação o sistema volta à fase da prevenção.

Todas essas fases podem ser objeto de planejamento e medidas que se não chegam a evitar tragédias, minimizam suas conseqüências.

Se tivessemos uma Defesa Civil Nacional bem estruturara com uma doutrina consistente erradiada para estados e municípios, talvez pudessemos ser poupados da grande maioria dos desastres.

Um exemplo.

(Aqueles que não tiverem afinidade com a área técnica podem passar ao tópico seguinte sem prejuízo da compreensão do artigo.)

Como exemplo segue um resumo esquemático do planejamento de risco e vulnerabilidade para chuva.

O primeiro dado a ser coletado é a série histórica de chuvas para a região em questão. A partir da análise desses dados são montadas curvas que relacionam intensidade/duração/frequência. Algumas regiões do país já tem equações de chuvas muito bem ajustadas. Essas equações podem ser traduzidas em gráficos como o da figura 01.

Uma vez determinado o tempo de recorrência, é possível conhecer a precipitação máxima x duração da chuva. Normalmente em projetos de engenharia os tempos de recorrência são elevados e têm relação com os danos máximos aceitáveis. Em projetos de drenagem esse tempo pode variar de 50 a 100 anos.

Com base nessa decisão, ou seja tempo de recorrência x danos máximos aceitáveis, monta-se um mapa das bacias hidrográficas da região. No exemplo foi adotado o tempo de recorrência de 50 anos.

Mapa de precipitações

A segunda etapa consite em mapear o sistema que absorverá o impacto. Esse mapeamento deve ser feito numa planta com cotas de nível para facilitar o estudo das cotas de alagamento.

A terceira etapa consiste em determinar, em função do volume de chuva, a cota de alagamento e respectiva área alagável.

A superposição da área alagável com o mapa físico permite identificar os elementos vulneráveis e o respectivo risco.

Todos elementos na área alagável estão em área de risco, podendo ou não ser vulneráveis. A área de agricultura por exemplo é completamente vulnerável, logo há um risco de perda de 100% para uma chuva com tempo de recorrência de 50 anos (nesse exemplo).

A zona urbana pode não ser vulnerável. As construções que resistirem à água não sofrerão danos.

Na prática todos os elementos em risco são analisados, chegando-se a um risco total que será avaliado quanto a ser ou não admissível.

Com base nesse estudo são elaborados os projetos para reduzir a vulnerabilidade do sistema. No caso específico da chuva, as medidas podem ser a implantação de drenagem e adequação das construções.

Esse mesmo estudo precisa ser feito para todos as ameaças passíveis de ocorrência na região. O Sistema Nacional de Defesa Civil – SINDEC criou um catalogo sistemático onde foram incluídos praticamente todos os desastres com códigos. O sistema tem o nome de CODAR- Codificação de Desastres, Ameaças e Riscos.

Ao final do estudo é gerada uma matriz onde constam todas as informações que permitem gerar prioridades de investimentos.

Esse exemplo mostra que soluções para evitar tragédias existem. Contudo há que haver capacidade técnica e vontade política para implantá-las.

Transpondo a teoria para a realidade brasileira.

No Brasil não existe uma cultura preventiva.

O povo tem o péssimo hábito de acreditar que desastres são raros. Além disso, cada indivíduo se julga com sorte acima dos demais, acreditando que jamais será uma vítima.

Políticos e governante por sua vez, não gostam de investir em prevenção.

Investir em prevenção representa desenvolver planejamentos de longo prazo, fazer obras pouco visíveis, fiscalizar e atuar com rigor no ordenamento urbano.

Além disso estruturar um sistema de Defesa Civil representa investir em treinamento e planejamento cujo retorno não se percebe à primeira vista. Quando um desastre ocorre e as conseqüências são trágicas, é possivel encontrar diversos culpados antes de concluir que o sistema de Defesa Civil falhou. Quando desastres simplesmente não ocorrem, ninguém lembra que talvez a origem da tranquilidade deve ser creditada a um planejamento de investimentos e a um sistema de Defesa Civil bem estruturado.

Nossos horizontes de planejamento atualmente são reduzidos e não existem políticas de Estado. Existem políticas de governo cujos objetivos são imediatistas e visam capitalizar votos para as próximas eleições.

É evidente que construir um estádio de futebol e reformar barracos em favelas ou mesmo fomentar sua expansão é mais barato e rende muito mais votos do que fazer obras de saneamento, infra-estrutura e atuar com rigor na fiscalização do uso e ocupação irregular do solo.

Além disso, os fenômenos são cíclicos e tem o chamado tempo de recorrência. Ou seja, existe uma relação entre a intensidade do fenômeno e sua probabilidade de ocorrência num determinado espaço de tempo. Assim, é pouco provável que fenômenos de intensidade excepcional ocorram com freqüência.

Logo, políticos medíocres preferem arriscar não investindo em prevenção pois a probabilidade da ocorrência de um fenômeno de grande poder de dano é baixa num período de 4 anos. E se acontecer, é fácil culpar a ira dos deuses, o destino ou qualquer outro. Jamais o povo fará a ligação entre a tragédia com negligência ou omissão dos governantes.

Assim, a fase de prevenção se transforma numa fase de aumento da vulnerabilidade. São exemplos de fatores que aumentam a vulnerabilidade de um sistema contra chuva:

  • desmatamento;
  • ocupação de encosta;
  • crescimento urbano desordenado;
  • execução de cortes ou aterros de taludes;
  • impermeabilização de superfície;
  • execução de construções em condições precárias e em desacordo com normas técnicas;
  • execução de construções inadequadas para resistir à chuva;
  • drenagem deficiente;
  • alteração das condições de drenagem;
  • ocupação da calha e margens de rios;
  • subdimensionamento de sistemas de drenagem.

Percebe-se portanto, que poder público e população na realidade tem sido cúmplices em aumentar a vulnerabilidade dos centros urbanos à chuvas intensas.

E este é apenas um dos fenômenos que deve orientar ações para redução de vulnerabilidades. Na prática, o estudo a ser feito é muito mais abrangente, pois conforme mencionado no exemplo dado, deve envolver todos os fenômenos que possam gerar danos ao sistema.

Outra peça fundamental desenvolvida na fase da prevenção é o planejamento para a hipótese da ocorrência do fenômeno, seja ele qual for.

Se existir um planejamento adequado, todas as vulnerabilidades serão conhecidas, estarão mapeadas e quantificadas. Com isso é relativamente fácil identificar medidas de preparação e resposta.

Ou seja, todas as vulnerabilidades que não podem ser reduzidas na fase de prevenção são conhecidas, permitindo que se tome medidas como:

  • prever meios de transporte para evacuação;
  • evacuar áreas críticas,
  • prever alojamentos;
  • planejar o policiamento para evitar saques;
  • planejar toda logística de suprimento e abastecimento da população;

Quando essa fase é bem planejada, a resposta tem o mínimo de ações improvisadas. Tal torna toda operação mais eficiente e menos onerosa.

Durante a resposta o mais difícil é administrar os egos de todos os envolvidos. É impressionante como um microfone e possíveis 3 minutos de fama cegam as pessoas. Muitas vezes o socorro é prejudicado pelo fato dos agentes envolvidos disputarem a primazia de comandar ou aparecer na mídia em detrimento do bom curso de todas as operações.

Durante a fase de resposta algumas ações são fundamentais:

  • policiamento para evitar saques;
  • implantar rigorosas medidas de controle epidemiológico.

Toda cidade deveria ter um planejamento que identificasse ameaças, vulnerabilidades e riscos, além é claro de um plano de emergência para cada situação. Atualmente existem planejamentos genéricos e a fase de resposta é mais improvisada que um “retirada da Lagua”.

O simples fato de se utilizar escolas como alojamentos e abrigos demonstra a precariedade do sistema e total inexistência de planejamento. A experiência tem mostrado que esse é um dos erros mais primários, pois traz prejuízos irreversíveis na formação daqueles que tem o ano letivo interrompido devido ao uso da escola como abrigo ou alojamento. Como já aconteceu em outras situações, a permanência dos “sem teto” que perderam suas casas se arrasta por muito tempo até que governantes consigam encontrar um local para transferí-los.

Esse é apenas do muitos exemplos de um planejamento inadequado e de suas conseqüências.

Por último a fase de reconstrução é o momento ideal para que se faça uma avaliação técnica. Muitas vezes um desastre com perda total é a grande oportunidade para corrigir erros com intervenções que em condições normais não seriam possíveis.

O exemplo típico é uma favela construída em área de risco. O desastre pode ser o momento de iniciar uma política de reassentamento em condições dignas e seguras. Contudo se o poder público agir de forma irresponsável e populista fornecendo às vítimas um “kit reconstrução” o sistema continuará sendo vulnerável e na próxima chuva o caos se repetirá.

Outro aspecto cada vez mais presente na realidade brasileira é que o povo está se tornando bárbaro no verdadeiro sentido da palavra.

Qualquer anomalia é motivo para o inicio uma onda de saques. As fotos têm mostrado que os saqueadores não são miseráveis em busca de sobrevivência e sim indivíduos sem moral se aproveitando da situação. Saquear cerveja, eletrodomésticos e outros bens não tem qualquer relação com a necessidade de sobreviver.

Aqueles que se valem do caos para saquear o patrimônio alheio ou furtar gêneros em são bandidos como qualquer outro e assim deveriam ser tratados.

Contudo essa cultura de aproveitar a oportunidade para “se dar bem” está cada vez mais presente na população que se diz “do bem”. Chegamos a um ponto tal de decadência e inversão de valores, que saqueadores, certos da impunidade, já não se importam em aparecer de frente em fotos.

Por outro lado o poder público tem se mostrado extremamente omisso. Age como se as circunstâncias do desastre fossem um salvo conduto para o desrespeito à lei.

Via de regra a força policial, só chega a intervir depois do fato consumado e não tem qualquer interesse em responsabilizar ou prender essas hordas.

A questão é que nas últimas décadas surgiu um pensamento que tudo que tem relação com ordem e repressão a ilegalidades cometidas pelo povo é impopular e deve ser evitado. Assim vivemos o “vale tudo” que nos levou ao caos urbano e a insegurança.

Estamos em pleno século XXI. O país está sendo barbarizado e todos que se auto-denominam “excluidos”, “pobres”, ou “povo” se julgam no direito de transgredir leis. As autoridades por sua vez agem como se esses crimes fossem legítimos e uma espécie de compensação que a sociedade deve aos “necessitados”. Argumento imoral, ilegal e inaceitável.

Do ponto de vista do planejamento de ações de prevenção e resposta a desastres essa é a pior política e um passo para ampliação das conseqüências do desastre. É natural que pessoas resistam a bandonar seus bens se o poder público não oferece qualquer garantia de segurança.

Por todos esses aspectos é fácil perceber porque ciclicamente somos vítimas de grandes desastres.

Governos têm sido populistas e irresponsáveis. Pouquíssimos são os municípios e estados que têm um planejamento consistente para reduzir vulnerabilidades e responder a desastres. A prova é o caos urbano endêmico em todo país.

A grande maioria de governantes se contenta em promover teatros e quando o desastre ocorre todos se lamentam. A população que tem grande responsabilidade no processo da “construção” da vulnerabilidade, chora.

Governantes cinicamente se esquivam das responsabilidades e muitas vezes aproveitam à oportunidade para, num gesto de grande benevolência com recursos públicos, oferecer migalhas e crescer politicamente.

Todos, desde a população até governantes e Ministério Público parecem ignorar que omissão e negligência são crimes.

Os grandes centros urbanos brasileiros, sem exceção são vulneráveis muito além do aceitável. Temos, portanto, uma série de desastres anunciados e amplamente conhecidos no meio técnico. Sua ocorrência é mera questão de tempo.

Se não banirmos de uma vez por todas políticos medíocres e populistas do cenário político brasileiro, em pouco tempos seremos uma Nação esfacelada e barbarizada.

Essa é a realidade nua e crua.

Para ler mais sobre o assunto:

  • OGLOBO 30/11/08 – União só investiu 8% do previsto constra desastres.
  • OGLOBO 30/11/08 – Abandonar a prevenção beira a irresponsabilidade.
  • OGLOBO 30/11/08 – Polícia faz rondas para impedir novos saques.
  • OGLOBO 27/11/08 – Sesdec divulga balanço das ocorrências registradas no Estado em função das chuvas.
  • OGLOBO 22/11/08 – Chuva deixa 80 pessoas desabrigadas e outras 360 desalojadas em Santa Catarina.

Bruno Engert Rizzo é autor de dois livros sobre Defesa Civil disponibilizados gratuitamente:

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