domingo, 7 de fevereiro de 2010

'Não faço questão de ser vice'


BRASÍLIA - A nova Executiva Nacional do PMDB está totalmente fechada com a candidatura da ministra Dilma Rousseff, mas o presidente reeleito da legenda e presidente da Câmara, Michel Temer (SP), adverte que a aliança com o PT na corrida sucessória não pode ser dada como fato consumado. “Não faço questão de ser vice. Nem vice, para mim, é coisa de vida ou morte.” Reconduzido ao comando partidário, Temer tem mais a comemorar com o resultado da convenção nacional do que o Planalto, que investe tudo na parceria com o PMDB.

Apesar dos recursos à Justiça e protestos do grupo que se recusa a aceitar a aliança, não há contestação ao comando de Temer. Diferentemente do que ocorreu quando assumiu a presidência da Câmara, este ano ele não se licenciará do comando partidário, para estar à frente das negociações. “É pleito de todos que eu presida o partido”, adianta nesta entrevista ao Estado. Temer aposta que o prazo para a definição da aliança e do vice é abril. Como os petistas começam a discutir o programa de governo, vai logo avisando que seu partido não aceitará prato feito.

Fechada a aliança com o PT, o senhor faz questão de ser vice?

Absolutamente não. Não tenho nenhuma pretensão em relação a isso. Muitas vezes dizem que quero ser vice, e grifo a expressão quero, quando isso é fruto de uma conjuntura política do PMDB. Isso só vai se decidir lá no futuro, mas volto a dizer que não tenho pretensão como se fosse uma coisa de vida ou morte. Não é. Com a nova direção fechada com a candidatura Dilma, a aliança já é fato consumado para o PMDB?

A grande maioria do partido hoje pode optar por uma aliança dessa natureza. Mas nós, os membros da Executiva eleita agora, somos obrigados a atender a todas as tendências. Estamos no rumo da unidade quase absoluta, mas não podemos desprezar outras teses que serão discutidas. Reconheço que a tese predominante é a da aliança, dependendo ainda de uma série de circunstâncias. Uma das circunstâncias é a solução dos Estados em que há disputa entre PT e PMDB.

A aliança não é fato consumado?

Não é nem pode ser ainda. Neste momento, nem a candidata ainda o é. Portanto, é preciso esperar o lançamento da candidatura e, depois, as articulações que faremos nos Estados. Quero ressaltar que, se o PMDB vier a fazer esta aliança, fará uma aliança programática. Verifiquei que o Congresso do PT poderá aprovar desde agora o programa do governo, mas esse programa terá de ser um amálgama daquele que o PMDB vier a apresentar.

Existe a possibilidade de a aliança não se consolidar em junho?

Não quero avançar nenhuma perspectiva. Tenho ressaltado é que há três teses no partido. A da candidatura própria, a do apoio ao candidato tucano José Serra, nunca ignorando que a da aliança com o PT é a preponderante. O pré-compromisso estabeleceu que o vice seria do PMDB, que o PMDB participaria do plano de campanha e de governo e que solucionaria as questões estaduais. Tudo isso está sendo encaminhado, mas terá de se consolidar para consolidar-se a aliança.

Ainda falta alguma coisa para que essa aliança se feche de vez?

Há condicionantes por parte do PMDB, como podem haver do lado do PT. São naturais. O partido tem de sentir-se absolutamente satisfeito para não ser uma mera adesão e sim uma coalizão que não se dará pela primeira vez no instante do governo, mas no da eleição.

Mas quando se discute a vice e o PMDB briga por isso passa a impressão de que está disposto a fazer uma aliança a qualquer preço.

Não é a qualquer preço. É ao preço de um programa para o País, de participação no plano de campanha da candidata. Ainda passa por esses fatores.

O sr. quer dizer que, em relação ao programa que o PT quer discutir, o PMDB não aceita prato feito?

Evidentemente, não podemos dar palpites em relação à discussão do programa dentro do PT. Isso é fruto da autonomia do partido. O que queremos é levar adiante o pré-compromisso pelo qual juntaríamos os programas dos partidos para que saísse o plano de governo.

A que atribui a resistência de setores do PT a sua indicação a vice? O problema foi a citação de seu nome na Operação Castelo de Areia, da PF, levantando suspeita sobre doações ilegais de campanha?

Se provêm do PT, essas objeções, são equivocadas porque não há candidatura a vice. Isso se estabelece no momento da aliança. O PMDB também não quer indicar um nome que, ao invés de enaltecer a aliança político-eleitoral, a desmereça.

Diante dessas resistências, o senhor teme ataques que o desgastem politicamente?

Não tenho a menor preocupação em relação a isso e tomei até providências judiciais exatamente em face da inexistência de temor. Essas coisas já foram ditas e, convenhamos, não colaram. Se o objetivo era fazer colar isso em mim, não colou. Se houvesse preocupação, haveria de ser de natureza política. Muitas vezes o partido da candidata pode dizer “olha, preferíamos um outro vice”.

Setores do PT dizem que não podem expor a candidata porque o senhor poderia repetir o senador Guilherme Palmeira, que em 1994 renunciou à vice de FHC. Esse temor é real ou a questão é política?

Acho de uma maldade extrema essa espécie de afirmação. Reitero que não tenho nenhuma preocupação em relação a isso e penso que essa minha afirmação enfática levará a candidata e o PT à despreocupação absoluta. Até repudio essa espécie de insinuação que, na ausência de fato concreto, não tem característica moral e sim política. Muitas vezes é utilizada com o objetivo de tentar provocar um afastamento.

Existe a possibilidade de a convenção optar por outro rumo, como a candidatura própria ou o apoio ao candidato do PSDB?

Reitero que não sei o que vai acontecer na convenção. Tem vários meses pela frente. Tudo dependerá muito da relação política que se estabelece entre o PMDB e o PT.

Em abril PT e PMDB terão equacionado a vice e as disputas em Minas, Bahia, Pará e Mato Grosso do Sul?

É isso. E, se surgirem problemas em outros Estados, teremos de solucioná-los.

O nome do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, foi lembrado para vice com o apoio de Lula. Ele está sendo cogitado no partido ou isso nunca existiu?

Cogitação não existiu, mas quero ressaltar as qualidades do Henrique Meirelles, pela experiência que teve na iniciativa privada e que tem hoje no setor público. Ele também é dos tais que podem ocupar qualquer cargo público no País.

O PMDB aceitaria um cristão novo para ocupar a vice? Precisaria ser mais identificado com o partido?

Talvez a dificuldade seja essa, mas seria a única.

Independentemente de ser o senhor ou não o candidato a vice, o PMDB admitirá interferência do PT nessa escolha?

O PMDB vai dialogar para escolher o vice, mas evidentemente não vai admitir interferência. É claro que haverá diálogo e troca de ideias, mas o partido será autônomo.

O recurso à Justiça para impedir a convenção surpreendeu o senhor?

O recurso não, porque seria legítimo recorrer. O que surpreendeu foi a concessão da liminar, por causa da absoluta inviabilidade jurídica. Tanto que ela foi cassada pelo STJ.


Estadão

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