quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O nó das sanções ao Irã


O Estado de S. Paulo - 10/02/2010

A crer na versão oficial de Teerã, o Irã começou ontem a cumprir a ordem do presidente Mahmoud Ahmadinejad para produzir um volume indeterminado de urânio enriquecido a 20% para alegado uso em um reator com fins medicinais. Anunciada por Ahmadinejad no domingo, a decisão foi comunicada no dia seguinte à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O governo iraniano também comunicou que iniciará já este ano a construção de nada menos de 10 centrais nucleares, prometida em novembro último.

Não está claro se a República Islâmica tem condições de fazer uma coisa ou outra, em escala tal que justificaria os receios de que acelerou o passo para a fabricação da bomba atômica (com urânio enriquecido a pelo menos 90%) em um punhado de anos. O que o Ocidente sabe com segurança da capacidade do Irã de alcançar o objetivo que se atribui ao seu governo parece superar apenas o que conhece dos projetos nucleares da Coreia do Norte. O mesmo vale para os respectivos processos de decisão na matéria. Ainda que se trate de um blefe, no entanto, as potências ocidentais tinham de reagir à iniciativa iraniana como a um desafio político.

Reunidos em Paris, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, defenderam a adoção de novas e mais rigorosas sanções contra Teerã, embora mencionassem a "esperança" de que elas levem os iranianos de volta à mesa de negociações. Na Rússia, que até meados do ano passado vinha fazendo companhia à China como os únicos membros do Conselho de Segurança com poder de veto a se opor ao endurecimento dos castigos ao Irã, o presidente da comissão de relações exteriores do Parlamento, Konstantin Kosachyov, ligado ao Kremlin, exortou a comunidade internacional a preparar "sérias medidas" de represália.

Mais fácil falar do que fazer. O maior obstáculo é a recusa da China, o principal parceiro comercial do Irã, que supre 12% da sua demanda de petróleo. Além disso, na remota hipótese de que Pequim possa ser persuadida a aderir às sanções, se elas causarem danos substanciais à economia iraniana provavelmente terão o efeito bumerangue de reduzir o antagonismo da oposição ao repressivo governo Ahmadinejad. Já se viu esse filme em Cuba. Por fim, as punições anteriores aprovadas pelo Conselho de Segurança não impediram o desenvolvimento nem do programa nuclear iraniano nem da sua indústria bélica.

Eis por que o ministro alemão da Defesa, Karl-Theodor zu Guttenberg ? para quem foram "uma farsa" as conversações com o Irã, que Ahmadinejad acaba de refugar ?, adverte que "precisamos considerar com muito cuidado que impacto nossas opções podem ter". Ainda assim, reconheceu, "é preciso deixar claro para o Irã que a paciência está chegando ao fim". Como fazê-lo de modo eficaz, não se sabe. Para complicar ainda mais o quadro, existe o risco não desprezível de que países sem poder de veto no Conselho de Segurança derrotem as sanções no voto. Seria uma desmoralização para o Ocidente.

Medidas do gênero precisam ser aprovadas por 9 dos 15 membros do organismo. Entre os membros não permanentes, Líbano, Nigéria e Turquia são considerados votos pró-Irã. O Brasil também se oporá às sanções. O chanceler Celso Amorim ainda diz acreditar que "não estão esgotadas as possibilidades de se alcançar uma posição comum entre o Irã e o Sexteto (EUA, França, Grã-Bretanha, Rússia, China e Alemanha)". Em outubro, o Irã parecia inclinado a aceitar a proposta do grupo de enviar ao exterior a maior parte do seu urânio enriquecido a 3,5% para elevar o teor a 20% ? o que agora Ahmadinejad diz que será feito em instalações iranianas.

A preocupação francesa com o voto dos sem-veto pode explicar a notícia do Le Monde, na segunda-feira, sobre a irritação de "diplomatas europeus" com a posição brasileira. "O gigante da América Latina tem uma voz distinta do Ocidente sobre a questão nuclear iraniana", assinala o jornal. O paradoxo é que o gigante regional é um ator recém-chegado ao grande palco mundial, onde se move como um veterano. Até aqui o único efeito desse protagonismo, descontadas as louvações de Teerã, é o País ser visto como desprovido de maturidade para desempenhar o papel que ambiciona.

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