terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

sobre 2010 e José Alencar


Hoje, o candidato do Planalto ao governo de Minas é José Alencar, vice-presidente. Mais do que o acerto político, a linguagem que acompanha a decisão já está consolidada. E até o jornalismo escolhe um caminho, vamos dizer assim, decoroso. Câncer, em muitos casos, ainda é “aquela doença”. Ou, como se dizia no meu interior, e os mais antigos ainda dizem, “doença ruim”. Mais e mais se pronuncia o seu nome, mas permanece aquela bruma de decoro. No Estadão, por exemplo, lê-se o que segue — cito só um exemplo, que já se espalha:

Ele lembrou ontem, em Belo Horizonte, depois de um encontro com o governador Aécio Neves (PSDB), que só tomará uma decisão na segunda quinzena de março, depois que fizer exames para saber se está curado do câncer no abdome. “Antes disso não tomo decisão nenhuma”, declarou. O vice-presidente ainda fez questão de dizer que sua preferência é por um cargo legislativo.

Se Alencar dependesse do parecer dos médicos, desistiria desde já. Eles não dirão que seu câncer está curado de jeito nenhum. Se disserem, ou um milagre terá acontecido ou estarão mentindo para atender à agenda política. O sarcoma que ele tem é incurável segundo o que há na literatura médica. Mesmo nos casos em que a cura é possível, antes de um determinado número de anos, varia de acordo com o tipo da moléstia, não se fala em “cura”. Nem Dilma pode-se dizer “curada”. No máximo, ela pode se declarar sem a doença agora.

Deixo claro — e acredite quem quiser — que torço pela recuperação de ambos. Há uma dimensão puramente humana nessa história. Conheço o horror de uma gente bucéfala que se organiza para torcer contra a saúde alheia e que não reconhece limites na divergência política e ideológica. Desejar a morte daquele de quem se discorda não deixa de ser um ato de terrorismo moral ao menos. Desejo é saúde aos dois.

E isso não me impede de lembrar um célebre ensaio de Susan Sontag —acho meio bobo, mas ficou famoso: A doença como metáfora. Vivemos os tempos da “doença como solução”. A de Dilma serviu para consolidar a imagem da batalhadora, daquele que enfrenta qualquer dificuldade. Recuperem o noticiário: foi ali que ela se firmou. A de Alencar está servindo para impor um redutor a todas as disputas no campo governista mineiro. Nem PT nem PMDB se oporão a Alencar. No máximo, haverá disputa, entre os petistas, para o lugar de vice.

E o lugar de vice, nessas circunstâncias — tanto as de Alencar como as de Dilma — tem um peso que jamais teve no Brasil, incluindo o caso de Tancredo Neves. Ninguém sabia do seu real estado de saúde. Agora, sabe-se bem mais. Mas uma nuvem de decoro impede o noticiário político de fazer não exatamente especulações, mas deduções lógicas. Nos EUA, os três tratamento contra melanoma de John McCain podem lhe ter tirado alguns milhões de votos. No Brasil, tendo a achar que a doença pode render alguns milhões.

A eventual candidatura de Alencar — se estiver em condições de disputar, não “se estiver curado” — tem desdobramentos importantes na política mineira e também na sucessão.

A eventual candidatura de José Alencar ao governo de Minas é, potencialmente ao menos, o evento mais importante desta fase de pré-campanha. Para começo de conversa, arma-se um palanque poderoso para Dilma Rousseff no estado, cujo eleitorado é considerado, não sem motivos, importante para definir o próximo presidente da República.

Por razões que vocês conhecem, e que não cabe elencar agora para não desviar o foco, o Nordeste estará em peso com a candidatura que Lula escolher. As pesquisas já refletem isso. É a única região em que Dilma hoje lidera a disputa. O ainda não-candidato José Serra está na ponta nas demais, mas cercado de incógnitas e dificuldades.

Entendo, estabelecendo um paralelo para que vocês percebam com clareza os caminhos que estou trilhando, que os eleitores de Minas e São Paulo deveriam ser, para o candidato tucano, o que é o eleitorado nordestino para Dilma: uma espécie de rede de segurança, para que, então, se tentasse conquistar o que, de fato, estaria em disputa. Daí decorre a minha avaliação, por dedução lógica, de que um candidato tucano tem de ter Minas. Ou suas chances se reduzem drasticamente. O PSDB sabe disso, claro. E, por isso, tem sonhado com a possibilidade de Aécio aceitar ser vice de Serra.

Ocorre que o PT se antecipou em alguns lances e mandou uma coluna de tanques para o estado. Houvesse mar em Minas, eu escolheria outra metáfora: mandou toda a Armada. O eventual sucesso de uma chapa encabeçada por Serra continua a depender, entendo, de Aécio aceitar o desafio: mas, acreditem, a importância dessa escolha também tem de ser repensada à luz da nova realidade.

A eventual pregação de José Alencar apelará aos mais “profundos sentimentos de Minas”. Aécio, sem dúvida, passa a ter um desafio no seu próprio terreno se é real a determinação de fazer Antonio Anastasia seu vice. Sabe que a figura de Alencar tornou-se inatacável. “Mineiro não ataca nunca, Reinaldo”. Falso! Márcio Lacerda só venceu a prefeitura de Belo Horizonte porque houve a opção por triturar Leonardo Quintão; a campanha não teve nada de “light”. Ocorre que não dá para desconstruir Alencar.

Aécio tem, é fato, um estoque de realizações a exibir; Alencar tem uma mensagem que apelará a uma espécie de messianismo decoroso, cordato. O lado “obreiro” ficará por conta de sua parceria com Lula. E estará amparado por PT, PMDB mais a estupenda máquina da candidatura Dilma. Será uma parada dura.

Acho que o PSDB tem de voltar à prancheta. Ou, se me permitem a blague, tem de ter uma prancheta, qualquer uma. Serra, Aécio, Sérgio Guerra, FHC, Tasso Jereissati — a cúpula do partido, enfim — têm de pensar a nova realidade. Não adianta fingir que Alencar não é um fato novo. É.

Ademais, não custa lembrar: o eleitorado paulista tem-se mostrado mais refratário ao PT do que o de Minas. Não é impossível, mas acho improvável que Dilma consiga liderar a disputa em São Paulo em qualquer quadro. A questão de sempre permanece: como as oposições podem engajar o eleitorado mineiro nessa nova realidade? E, curiosamente, essa questão agora é importante também os tucanos… mineiros!


Reinaldo Azevedo

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