terça-feira, 30 de março de 2010

Dilma, Eike e os irmãos PAC


Celso Ming
O Estado de S. Paulo - 30/03/2010


A pobre ministra Dilma Rousseff e o bilionário empresário Eike Batista têm algumas coisas em comum. Ambos bolam planos mirabolantes e ambos não têm dinheiro para transformá-los em realidade.


Mas o empreendedor Eike Batista ao menos tem contratado competentes malabaristas financeiros. Estes têm obtido sucesso em convencer o mercado financeiro a adiantar os recursos que, logo em seguida, recebem o carimbo X (da multiplicação) e depois se destinam transformar boas ideias em ouro fulgurante.

Aquela que até agora foi a mãe do PAC apresentou ontem, sob aplausos da plateia, o caçula recém-saído de um arquivo Power Point. Mas não consegue explicar de onde vai ordenhar o R$ 1,6 trilhão em investimentos previsto no PAC 2, cerca de 150% a mais do que planejava para o filho mais velho, o PAC 1.

Para que o PAC 2 seja, a partir de 2011, mais do que uma extensa relação de boas intenções, contará, por mais nove meses, quase unicamente com o atual guardião do Tesouro, o ministro Guido Mantega, também um pobretão. Mantega concorda em que é preciso atrair capital estrangeiro para já e para o futuro, mas, na prática, faz o contrário.

Seus últimos passos foram desincentivar com uma taxa de 2% a entrada de capitais, inclusive as aplicações de estrangeiros no mercado de ações, que há alguns meses, dizia ele, passava por euforia excessiva e precisava de corretivo.

Mantega parece travado por seus amigos estruturalistas que não gostam de investimentos estrangeiros, não porque sejam maus, mas porque só podem acontecer em volumes enormes se houver também enormes déficits em conta corrente (contas externas). E a rombos assim, os amigos têm horror, independentemente da qualidade do capital estrangeiro que chega. Em todo o caso, apesar dessas restrições, na condição de presidente do Conselho da Petrobrás e do Banco do Brasil, Mantega sabe que precisa atrair capitais, e quantos mais, melhor.

Só para inversão em petróleo e gás estão previstos R$ 285,8 bilhões até 2014. Não se sabe onde a Petrobrás vai arrebanhar tantos recursos. Até para tomar dinheiro emprestado precisa urgentemente reforçar seu capital. Mas seu controlador, o Tesouro Nacional, que tem dado prioridade à cobertura de despesas correntes do governo federal e não à formação de poupança, só pode subscrever a sua parte se for em petróleo virtual, que está desde o período pré-cambriano a 6 mil metros de profundidade e precisa do concurso de centenas de bilhões de dólares para trazê-lo ao nível do mar.

A ideia é convencer os acionistas minoritários, daqui e do exterior, a comparecer com o que o Tesouro não tem para proporcionar, mais ou menos como tem ensinado o empresário Eike Batista.

Independentemente das boas intenções, o Brasil precisa de capitais para crescer. A poupança interna tem sido insuficiente (de apenas 16% do PIB), mas o que mais falta não é poupança, é uma política para garanti-la.

Quanto ao capital estrangeiro, é preciso entender que não faltará nunca, se o projeto é produzir no Brasil veículos, alimentos e produtos de limpeza. Já se o projeto for desenvolver infraestrutura e tecnologia avançada, mais do que oferecer incentivos fiscais, é preciso regras consistentes de jogo. Mas este é artigo em falta no País dos irmãos PAC.


CONFIRA

É um dinheirão

A tabela mostra que a área de energia (petróleo, gás e energia elétrica) toma a maior parte dos investimentos do PAC 2. Na área do petróleo e gás, a maioria dos investimentos acontecerá depois de 2014, quando o próximo governo já terá acabado.

O Brasil não é a China

Não faz sentido dizer que o Brasil precisa assumir o modelo chinês de desenvolvimento. A China poupa 51% do PIB e nós aqui, 16%. O Brasil nunca vai ser como a China, mas ao menos poderia aumentar sua poupança para uns 22% do PIB.

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