domingo, 28 de março de 2010

A Ignorância e a Vingança. Ou o povo brasileiro contra o Estado de Direito


É muito provável que a justiça tenha sido feita no caso da menina Isabella. Havia evidências suficientes para condenar o pai, Alexandre Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, pelo cruel assassinato da filha de Nardoni. Há, contudo, aspectos perturbadores no que diz respeito à reação de parte da sociedade não só ao crime, mas ao processo e, sobretudo, a seu desfecho.

Os rojões que algum infeliz teve ideia de soltar quando saiu o veredicto ressoaram como uma terrível lembrança de patologias sociais latentes. Não se comemorava “justiça”, que todo cidadão deve prezar e desejar, mas sim “vingança”. Se não houvesse os muros do tribunal e a corrente de policiais entre a massa e os réus, certamente teria havido linchamento.

A agravante é que, estimulada pela mídia sensacionalista, essa massa parecia não distinguir realidade de ficção. Esperava-se o desfecho do caso como um dia de eliminação do Big Brother Brasil. Houve uma emissora de TV que, horas antes do veredicto, pôs no ar uma enquete para que o telespectador decidisse se o casal era “culpado” ou “inocente”. O linchamento, que poderia ser físico, se deu de modo virtual.

Uma sociedade que assim se comporta é cúmplice da violência que supostamente repudia. Mesmo sem antecedentes criminais, os réus foram mantidos presos durante dois anos, até seu julgamento, sob o argumento de que era necessária a “preservação da ordem pública” e também porque havia um “clamor público” causado pelo crime. Ou seja: a vingança parece ter começado antes do julgamento. É a confissão da falência do sistema.

Os desocupados que foram à porta do tribunal clamar pelo sangue do casal Nardoni tinham consigo o conforto moral que somente as massas fascistas possuem. Não havia entre eles nenhum traço de dúvida ou de contestação a respeito do caso, somente certezas. O prazer de assistir à condenação de dois assassinos de uma menininha conferiu a eles uma sensação de poder que em seu dia a dia lhes é sistematicamente negada. Depois de satisfazer sua sede de vingança, os desocupados se dispersaram e voltaram a seus afazeres medíocres. Sumidos no anonimato e em sua apatia bovina, eles continuarão sem reação ante as verdadeiras injustiças de seu cotidiano.



Estadão


Não quero entrar no mérito da decisão judicial. Mas, se houvesse absolvição, será que não haveria uma tragédia diante do fórum pelos desocupados de plantão que lotavam as redondezas???
O Estado de Direito sofreu coação pela mídia sensacionalista e o "clamor popular" dos desocupados com sede de vingança???

4 comentários:

General disse...

Caro Stênio, tenho que discordar de você.

O caso foi grave e merecia punição exemplar.

O povo que se acotovelava, na verdade, está saturado e consegue extravasar seu desespero em episódios como esse que tudo fazia indicar vitória da justiça contra o bandido, já que dia e noite vemos o bandido seduzindo essa mesma justiça para caminhos diversos.

Li, com respeito, a manifestação de vários blogueiros criticando a cobertura da imprensa, mas se víssemos desprezo quanto a uma aberração desse nível, poderíamos fechar para balanço, pois tudo estaria perdido.

É inominável um pai que mata uma filha. Esse maucaratismo foi a ferros e não sei se você reparou as entrevistas dos circunstantes tanto no JN, quanto no jornal da Band, todos indicaram que muita coisa podre pelo país afora também precisava ir para o xilindró.

Abraço e boa semana santa.

Stenio Guilherme Vernasque da Silva disse...

Amigo General.
Também discordo de vc.
O que se viu em frente ao fórum de Santana, foram cenas de MEDIEVALISMO compatível aos anos de horrores da Inquisição.
Todos tem direito a defesa justa, mesmo presumidamente culpados.
Gostaria de ver a situação de um daqueles desocupados que soltaram rojões após a sentença, necessitando de algum tipo de defesa ante uma investida do Estado.
Este é o Estado de Direito.
Eles entraram no julgamento condenados (coisa que eu particularmente acho que são culpados sim), mas agredir o advogado de defesa????
Se não fosse o Dr Podval, teria que ser outro. Se nenhum advogado aceitasse o caso, o Juiz nomearia um.
Portanto é ridículo o comportamento popular.
Parecia final de Copa do Mundo.
Lamentável a falta de Cultura e Educação do povo que ali estava.
Representaram um acinte contra o Estado de Direito que tanto defendemos aqui.
Condene-se? SIM!
Mas com o Estado de Direito e sem o Espetáculo da mídia que provocou o medievalismo popular.
A sede de vingança e a ignorância de vândalos e desocupados.

General disse...

Stenio, bom dia.

O Estado de direito pressupõe observância do respeito às liberdades individuais, entre as quais à livre expressão e principalmente, à vida.

A imprensa fez o papel dela, ou seja, informou em tempo real a ação do Estado sobre dois marginais que mataram um ser indefeso após constrangê-lo fisicamente.

Não concordo com a agressão que sofreu o advogado e tenho certeza que em qualquer lugar do país ele poderia ser agredido, por qualquer representante de qualquer classe social, pois a inconsequência é perfil de seres imaturos.

Mas o acompanhamento de caso tão impactante e a externação de felicidade por métodos não convencionais é igualmente uma demonstração de democracia.

Não a suiça, ou a norueguesa, mas a brasileira, que ainda elege pessoas de caráter ruim e duvidoso.

Oxalá esse "espetáculo" que o amigo acha que houve se propague para outras vertentes do banditismo. Forte abraço e fique com Deus.

Stenio Guilherme Vernasque da Silva disse...

amigo...
continuo discordando.
Há uma linha tênue em desejo de justiça ou desejo de vingança.
Todos os limites desta tênue linha foram ultrapassados tornando um caos o que houve.
Mas encerro por aqui.
abraços.