quinta-feira, 18 de março de 2010

''Lula ajudará se pedir ao Irã que se afaste do Hamas''


Entrevista
Mahmoud Abbas
Presidente da Autoridade Palestina e líder do Fatah

CV: Figura central na política palestina e líder do Fatah desde a morte de Yasser Arafat, em 2004, Abbas tem 75 anos - 50 deles dedicados à luta por um Estado palestino. Antes de assumir a presidência da Autoridade Palestina (AP), em 2005, serviu como primeiro-ministro palestino.


A Autoridade Palestina (AP) dispensou a mediação do Brasil em seu diálogo com o Hamas. Mas quer que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveite a visita a Teerã, em maio, para tratar do envolvimento do Irã com o Hamas. Em entrevista exclusiva ao Estado, o presidente da AP, Mahmoud Abbas, deixou clara a mensagem: "Atores influentes da região dificultam a reconciliação nacional, particularmente o Irã, que não se mostra interessado no diálogo nacional palestino com base em uma agenda palestina." Na troca de perguntas e respostas com o Estado, por escrito, encerrada ontem em Ramallah, o presidente da ANP foi taxativo: "Pedimos ao presidente Lula que inclua o tema palestino no seu diálogo com o Irã."

Quais serão os pré-requisitos da AP para o início de negociações com Israel, mediadas pelos EUA?

Nós questionamos os Estados Unidos sobre as bases das negociações que conduziriam. Pedimos que o objetivo final das conversas fosse a coexistência de dois Estados, vivendo lado a lado de acordo com as fronteiras de 1967, conforme foi definido em resoluções da ONU. Nós também pedimos aos EUA que esclareçam qual será o seu papel como mediador e o que farão caso uma das partes não respeite os termos do acordo ou não seja séria para cumprir os compromissos.O que (Israel) está fazendo nos territórios ocupados, particularmente em Jerusalém Oriental, é um bom teste para termos uma clara noção do papel do mediador.

A suspensão da decisão de Israel de construir mais 1.600 casas em Jerusalém Oriental é precondição para o início do diálogo? Outros países, como o Brasil, podem contribuir ou seria preferível manter apenas os EUA como mediador?

Os palestinos não têm precondição para o lançamento das negociações. Nós somente pedimos a Israel que cumpra suas obrigações de congelar os assentamentos, incluindo em Jerusalém Oriental, conforme o Mapa da Estrada (acordo de 2006). Se Israel é sério quanto à solução de dois Estados, não faz sentido continuar a construção ilegal de assentamentos em terras da Palestina ocupada, nas quais supostamente nós criaremos o futuro Estado da Palestina.

E os outros países, como o Brasil?

O fato de o governo de Barack Obama ter oferecido seu apoio ao processo de paz não significa que outros países não terão serventia. A América Latina pode ter um papel construtivo se parar de comercializar com os assentamentos de Israel, se não reconhecer Jerusalém e outras áreas palestinas ocupadas como territórios de Israel, se não emitir passaportes e certidões de nascimento para os ocupantes dessas áreas e se advertir seus cidadãos a não investirem nem se mudarem para os assentamentos. A América Latina pode atuar como uma terceira parte, o que incentivará Israel a se retirar dos territórios palestinos. Por exemplo, o acordo de livre-comércio entre Mercosul e Israel não foi um passo construtivo. Ele foi ratificado por um parlamento sob comando do (premiê, Binyamin) Netanyahu, que está fazendo tudo contra a paz. E não há garantias de que produtos de colonos estarão excluídos de seus benefícios. Se assim for, (o Mercosul) mandará a mensagem errada.

O governo israelense insiste que ofereceu aos palestinos um plano de desenvolvimento, caso as negociações de paz sejam concluídas com sucesso. A AP aceitará tal cooperação?

Se as negociações forem bem-sucedidas, teremos nosso Estado independente e veremos de quem vamos aceitar a cooperação para o nosso desenvolvimento. Mas desenvolvimento econômico e ocupação são termos antagônicos. Ninguém acredita que uma ocupação ilegal possa trazer desenvolvimento econômico à Palestina.
Para dar um exemplo, o corredor de 30 quilômetros entre Ramallah, Jerusalém Oriental e Belém representa 35% da nossa economia. Como você espera que tenhamos uma economia viável se Israel preserva o objetivo de separar essas três cidades, uma das outras, e continua a expandir suas colônias, como as de Gilo, Har Homa, Pisgat Ze"ev e Neve Ya"koub? O que dizer dos postos de controle? Do muro? O que dizer da ideia de Israel de propor uma política de assentamento que conduza à "paz econômica"? Essa é outra proposta que não faz sentido.

É possível negociar com Israel sem antes haver um acordo entre o Fatah e o Hamas?

O Hamas jamais questionou a legitimidade da AP para travar negociações com Israel. Mas questiona as negociações como meio de retomar nossos direitos, o que é legítimo para um partido no nosso sistema político. Vários partidos do Parlamento de Israel não dizem apenas que são contra as negociações. Eles acrescentam que querem a transferência dos palestinos para a Jordânia. Então, por que o foco nas demandas do Hamas? A única demanda relevante é chamar um referendo nacional assim que tenhamos um acordo com Israel. E isso nós faremos com ou sem as exigências do Hamas.

Fatah e Hamas podem chegar a um acordo neste ano? Esse diálogo pode ser mediado pelo presidente Lula, como ele sugeriu em novembro?

Isso depende do Hamas porque nós já expressamos nossa convicção de alcançar a reconciliação nacional. As eleições são necessárias para renovar os conselhos Nacional e Legislativo, assim como os municípios e a presidência da AP. Atores influentes da região dificultam a reconciliação nacional, particularmente o Irã, que não se mostra interessado no diálogo palestino com base em uma agenda palestina.
Para o nosso diálogo com o Hamas, nós temos os nossos irmãos árabes, que têm sido muito ativos. Mas pedimos ao presidente Lula que inclua o tema palestino no seu diálogo com o Irã.

O senhor mantém sua decisão de não concorrer na próxima eleição presidencial, apesar dos apelos de vários chefes de Estado?

Quando candidato, formulei um programa político claro: não-violência, crescimento econômico e avanço nas negociações de uma solução com Israel. Foi por isso que fui eleito com 60% dos votos e tive um forte apoio da comunidade internacional. Junto com o premiê Salam (Fayyad), honrei todas as nossas obrigações do Mapa da Estrada e continuei a construir as instituições de um futuro Estado palestino. O que ganhei em troca? Um cerco e um massacre em Gaza, mais assentamentos construídos em áreas palestinas, demolições de casas, expulsões e revogação de carteiras de identidade de palestinos em Jerusalém Oriental e declarações de Netanyahu de que, mesmo que chegássemos a um acordo, várias áreas estratégicas da Cisjordânia continuariam como parte de Israel.

Então, por que continuar? Se não posso alcançar o que prometi para o meu povo, então é tempo de ficar de lado nas eleições. Eu agradeci o que ouvi do presidente Lula e de outros lideres sobre a minha decisão. Mas, a todos eles, dei a mesma mensagem: nossa gente vai encontrar alguém para me substituir. O fracasso do processo de paz não se deve à minha decisão de sair de cena, mas à decisão de Israel de expandir seus assentamentos. Se quiserem salvar o diálogo, em vez de pedirem para eu ficar, peçam que Israel pare.

Como membro não permanente do Conselho de Segurança, o Brasil pode adotar posições mais ativas em relação às demandas palestinas?

O governo e o povo brasileiros são nossos amigos. O fato de termos um campo de refugiados popularmente chamado "Brasil" mostra como esse país está na mente da nossa gente. O Brasil pode liderar os esforços da América Latina em relação à paz no Oriente Médio, assim como nas alianças que mantém com outros países, como África do Sul e Índia. Pode ainda defender a lei internacional no Conselho de Segurança, parar com o ingresso de produtos de assentamentos em seu mercado interno e trazer outros países latino-americanos ao tema. O discurso do presidente do Panamá (Ricardo Martinelli), na semana passada, de que Israel se tornou o "guardião de Jerusalém", causou preocupações e merece não apenas a nossa condenação, mas também a de toda a América Latina. Honestamente, confiamos no Brasil.




Estadão

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