quarta-feira, 10 de março de 2010

Lula enxovalhou de vez sua biografia (como se elle¹³ tivesse alguma boa biografia)


Lula andou espalhando por aí que foi convidado para ser secretário-geral da ONU. A pergunta é: como defensor de governos despóticos, Lula pode ocupar o cargo cuja atribuição, entre outras, é fomentar o respeito aos direitos humanos?

Em entrevista à Associated Press, o presidente brasileiro disse, a propósito dos presos políticos cubanos, que é preciso “respeitar a determinação da Justiça e do governo de Cuba”. Ou seja: se o regime tirânico de Havana atira nos porões quem ousa se opor a ele, isso não é problema nosso. Afinal, se a lei de Cuba manda prender opositores, quem é o governo brasileiro para questionar? A título de paralelo, o que diria Lula diante da prisão de milhares de militantes comunistas e social-democratas pelos nazistas nos primeiros anos de governo na Alemanha? Como foi tudo rigorosamente dentro da lei, Lula defenderia o respeito à decisão do regime de Hitler?

Num atentado aos valores democráticos, Lula declarou: “Gostaria que não ocorressem (detenções de presos políticos), mas não posso questionar as razões pelas quais Cuba os prendeu, como tampouco quero que Cuba questione as razões pelas quais há pessoas presas no Brasil”. Cuba certamente não tem o que questionar em relação aos presos no Brasil – afinal, são criminosos comuns, e lugar de criminoso comum, salvo melhor juízo, é na cadeia. Já os presos políticos cubanos estão detidos porque se recusam a aceitar um regime repressor e antidemocrático.

É obviamente um acinte comparar as duas situações, mas Lula fez exatamente isso: para ele, os presos políticos em Cuba estão na mesma categoria dos presos comuns no Brasil. Bastaria a Lula ter lido a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que está disponível no site de seu próprio governo e que foi violada quase na íntegra pela ditadura de Fidel e Raúl, para saber que cometeu um enorme despautério.

A comparação criminosa ficou evidente na sequência da entrevista, quando Lula afirmou, a respeito da greve de fome como instrumento de pressão usado pelos dissidentes cubanos: “Eu penso que a greve de fome não pode ser usada como um pretexto de direitos humanos para libertar as pessoas. Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem liberdade”.

Não são declarações adequadas a um postulante ao cargo de secretário-geral da ONU. Tampouco poderiam ter saído da boca de alguém cujo passado está tão ligado à luta contra a ditadura militar brasileira, regime cujo espírito não tem nenhuma diferença significativa em relação ao da tirania cubana. As palavras de Lula, que ofendem a inteligência e a causa da liberdade, são, no entanto, úteis: servem para ilustrar a espiral de hipocrisia em que mergulhou o outrora líder de um partido que se orgulhava de sua retidão de caráter e propósitos. Em nome de um projeto de poder irrefreável, os ideólogos do lulismo distorcem grosseiramente a realidade para justificar os crimes dos companheiros e para inventar um legado histórico que simplesmente não existe, salvo como mentira.

Diante disso, fica difícil saber o que Lula quer fazer de sua biografia.



Estadão

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