quarta-feira, 24 de março de 2010

O Brasil precisa dizer não


Qualquer que venha a ser o presidente eleito do Brasil entre os três primeiros candidatos mais bem colocados nas pesquisas de opinião é certo que deverá aprimorar a obra política da Era Lula.

Pelo menos é que o que têm dito Dilma Rousseff e Ciro Gomes. O governador de São Paulo José Serra não afirmou textualmente, mas ao evitar o confronto direto com o presidente deixa entender que esse é a intenção. Pelo menos é o que espera a sociedade brasileira.

Certamente, uma mudança fundamental de rumo se refere ao desenvolvimento da política externa do País.

Mesmo que saia vencedora a candidata chapa-branca, o relacionamento do País, especialmente com os nossos vizinhos, precisa sofrer uma guinada da admiração simpática para o pragmatismo. Dilma não precisa renunciar ao esquerdismo de boutique para cumprir tal intento.

A tendência é de o Brasil assumir posição cada vez mais acentuada de hegemonia na América Latina em função do poder econômico que o projeta para ser o quinto PIB mundial.

As mudanças em pauta devem passar tanto pela orientação política centrada na democracia quanto na condução dos negócios externos.

Isso equivale dizer que deve sair de cena aquele Brasil complacente com as recaídas autoritárias dos bolivarianos e as quebras contratuais impostas pelos demais vizinhos que prejudicam o interesse nacional.

O presidente Lula desempenhou bem o papel de "paizão" generoso e tolerante para firmar a sua posição de líder carismático do terceiro mundo. No entanto, o preço pago pela pusilanimidade é insuportável para um País com tanta desigualdade como o nosso.

As liberalidades foram em alguma medida exitosas ao agregar prestígio pessoal a Lula, tanto que está cogitado para assumir a Secretaria-Geral da Organização das Nações Unidas.

Na direção da ONU, o atual mandatário brasileiro pode perfeitamente em atos de retórica pagar a dívida da América com a África ou devolver o Tibet ao Dalai Lama. O organismo internacional aceita qualquer discurso neste sentido.

Na Era Lula fizemos concessões comerciais exageradas à Argentina na contramão de todas as regras tarifárias que deveriam reger o Mercosul. O objetivo do Itamaraty foi o de manter o bom relacionamento enquanto Buenos Aires só estava a fazer bons negócios.

A Bolívia de igual forma: para garantir a estabilidade nativista de Evo Morales aceitamos imposições flagrantemente contrárias aos interesses da Petrobrás. Até o Paraguai exerceu expansão física em face de nossa degradante política exterior.

O que precisamos dizer é que somos solidários com a América Latina, mas a irmandade termina onde começam os negócios. O Chile, por exemplo, já adquiriu tal grau de maturidade e por isso conta com os melhores indicadores sociais do subcontinente sustentados por uma economia sólida.

Ao Brasil está reservada a posição de garante das instituições democráticas na América do Sul. Tivemos a credibilidade arranhada ao patrocinar intervenção desastrosa em Honduras e temos muito mais a perder se mantivermos a leniência com o regime de Caracas e os seguidores da aventura bolivariana.

O Brasil precisa dizer sem hesitação que não tolera a perpetuação de mandatários no poder. Deve ser intransigente com as ameaças ao estado de direito, especialmente no que se refere à liberdade de expressão.

É inaceitável que o País faça de conta que não tem interesse no caso dos presos políticos de Cuba com a finalidade de bajular a figura provecta e grotesca de Fidel Castro. Se quiser assumir posição de liderança, o Brasil precisa abandonar as atitudes demagógicas e aprender a dizer não.



Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador (DEM-GO)

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