segunda-feira, 29 de março de 2010

“O MST é massa de manobra”


No Abril Vermelho do ano passado, mês em que os movimentos sociais fazem protestos pela reforma agrária, os líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) contabilizaram como sua primeira vitória o isolamento político do procurador de Justiça do Ministério Público do Estado Gilberto Thums, 55 anos. O procurador ficou conhecido como “o homem que tentou criminalizar os movimentos sociais”.

O estigma foi por ter proposto a ilegalidade do MST e ter exigido o fechamento das escolas itinerantes em acampamentos de sem-terra para que os alunos de pais que lutam por um pedaço de terra fossem para a rede pública. Pressionado e sem apoio de colegas de trabalho, Thums encerrou sua cruzada contra o que considerava atos ilegais dos sem-terra.

Onze meses depois de desistir do choque frontal, ele diz que continua com as mesmas convicções, mas reconhece que cometeu um erro estratégico por entender, na ocasião, que o MST agia de maneira isolada.

Leia a seguir trechos da entrevista:

Zero Hora – Depois de enfrentamento com o MST, o senhor disse que estava jogando a toalha por entender que havia sido encurralado pelos simpatizantes do movimento. Na ocasião, relatou que conversas suas haviam sido gravadas e que uma pessoa havia tentando atropelá-lo. Como está a sua vida hoje?

Gilberto Thums –
A minha vida está bem mais tranquila. Estou cuidando dos crimes praticados pela chinelagem. Com esses, ninguém se importa, não faltam recursos e tenho plena liberdade para trabalhar.

ZH – Se tivesse oportunidade de voltar no tempo, o senhor faria tudo novamente. Pediria a ilegalidade do MST e o fim das escolas itinerantes nos acampamentos?

Thums –
Faria tudo novamente. Só não cometeria o erro que custou o meu isolamento e o estigma de ser apontado como a pessoa que queria criminalizar os movimentos sociais. Fui ingênuo.

ZH – Qual foi o erro?

Thums –
Eu tratei a questão de uma maneira geral. Achei que o MST fosse a cabeça pensante de um esquema esquerdista que tinha como finalidade tomar o poder pisando na Constituição. Estava errado. O MST é massa de manobra de um sistema operado por pessoas muito inteligentes e poderosas.

ZH – Quem são essas pessoas?

Thums –
Eu não sei. Mas, ao primeiro passo dado na direção de identificá-las, que foi a ação que colocaria o MST na ilegalidade, fomos soterrados por uma avalancha de críticas, que nos imobilizou.

ZH – O senhor está falando da esquerda?

Thums –
Ser de esquerda ou direita não é contra a lei. Estou falando de grupos radicais que se instalaram dentro da esquerda e que se envolveram em operações criminosas. Cito dois casos que envolveram o MST em setembro de 2009: a invasão do prédio do Incra, em Porto Alegre, onde desapareceram equipamentos, e a destruição de pés de laranjeiras de uma fazenda no interior de São Paulo, a Fazenda Santo Henrique, em Borebi (São Paulo). Quem apontar esse pessoal, como eu fiz, é tachado de nazista e de querer criminalizar os movimentos sociais.

ZH – Na sua opinião, não existem pessoas que necessitam de auxílio no movimento?

Thums –
Claro que existe. Jamais fui ou seria contra aquela pessoa que se organizou e está lutando pelos seus direitos. Sou contra os que praticam crimes previstos na Constituição.

ZH – O senhor é descrito como sendo uma pessoa de direita. Essa sua cruzada contra o MST não é ideológica?

Thums –
Defendo o direito de propriedade que está previsto na Constituição.

ZH – O João Pedro Stedile, um dos líderes do MST, afirmou que as suas ações contra o movimento são ideológicas por estarem baseadas em informações fornecidas por um relatório feito pelo então coronel Waldir João Reis Cerutti, que durante a ditadura militar (1964-1985) se infiltrou entre os sem-terra usando o codinome de Toninho do Incra. O senhor concorda?

Thums –
Tenho 50 volumes de documentos contendo informações que pedi sobre as atividades do MST. Elas vieram de várias fontes, entre elas o coronel Cerutti, o professor Zander Navarro, que foi aliado do movimento durante muitos anos, além de outras. São dados concretos. Stedile é uma pessoa inteligente, articulada e está tentando desqualificar o meu trabalho.

ZH – O senhor tem ideia de como transita o dinheiro público dentro das organizações que orbitam ao redor do movimento?

Thums –
Pelas coisas que recolhi, tenho certeza que o dinheiro acaba financiando atividades do tipo Abril Vermelho (invasões de prédios, terras e trancamento de estradas).

ZH – Hoje o senhor é um espectador do movimento?

Thums –
Tal qual outras instituições públicas, dentro de um regime democrático, o Ministério Público é uma instituição politizada. Resta pouco espaço para uma pessoa com o meu pensamento. Mas estou me articulando com um pequeno grupo de resistência.

ZH – O senhor está planejando nova ação contra os sem-terra?

Thums –
No momento, não. Tenho convicção de que agi da maneira correta. Errei a estratégia da ação. Mas alguns coisas ficaram, como a proibição de marchas e de ações do movimento em oito municípios e o fim das escolas itinerantes. O Ministério Público Federal teve duas vitórias importantes agindo em pontos específicos, que foi conseguir a proibição de mais invasões da Granja Nenê, em Nova Santa Rita, e a apreensão de arroz plantado por arrendatários nos assentamentos da região. A estratégia é boa.



ZERO HORA

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