sexta-feira, 12 de março de 2010

Posição de Lula é pavorosa


UMA NOTA publicada nesta semana sugeriu que Luiz Inácio Lula da Silva estaria cogitando candidatar-se ao cargo de secretário-geral da ONU depois que deixar a Presidência. Se isso é verdade, explica muitas coisas. Até agora, a visão convencional era que a política externa brasileira recente de apoio declarado às ditaduras mais implacáveis do mundo estaria ligada à emergência do país como nova potência na economia mundial e a seu desejo de exercitar seu poder de ator novo -e acirradamente independente- no palco internacional.
É provável que isso seja verdade. Mas o relato afirmando que Lula foi sondado por mais de uma pessoa para ser candidato a secretário-geral da ONU em 2011 acrescentou um novo elemento ao quebra-cabeças do que está por trás da política externa brasileira.
Diego Arria, um ex-presidente do Conselho de Segurança da ONU, me disse que "Lula seria um candidato muito forte, devido ao peso do Brasil como potência cada vez mais independente e devido a seu prestígio internacional". Ele acrescentou que Lula pode estar agindo para agradar ao clima anti-EUA nas Nações Unidas, com vistas "a posicionar-se como candidato forte a secretário-geral".
Nos últimos dias Lula vem dando algumas declarações chocantes que são difíceis de compreender, vindas de um ex-líder sindical que fez oposição a ditaduras militares. Em uma entrevista, ele comparou com "bandidos" os oposicionistas cubanos pacíficos que estão fazendo greve de fome.
Lula, que visitou Cuba recentemente e posou, sorrindo, com o ditador militar desse país, general Raúl Castro, pouco após a morte do prisioneiro político Orlando Zapata em decorrência de uma greve de fome, afirmou que greves de fome não devem ser usadas "como pretexto" para defender os direitos humanos.
Dias antes, Lula tinha reafirmado sua decisão de visitar o Irã em maio, não obstante os esforços internacionais para impor sanções a esse país. No fim do ano passado, Lula deu a Mahmoud Ahmadinejad uma injeção de propaganda de que o presidente iraniano precisava muito quando o recebeu com honras de tapete vermelho em Brasília, apenas meses depois de o autocrata iraniano ter se proclamado vencedor de uma eleição altamente controversa.
Além disso, o Brasil vem cada vez mais usando seu voto nas Nações Unidas para "proteger países com históricos péssimos de direitos humanos", como Coreia do Norte, República Democrática do Congo e Sri Lanka, segundo relatório da organização Human Rights Watch.

Ban Ki-moon
Será que Lula tem alguma chance de tornar-se secretário-geral da ONU? A maioria dos diplomatas diz que o secretário-geral atual, Ban Ki-moon, cujo mandato termina em 31 de dezembro de 2011, deverá candidatar-se à reeleição. A maioria dos chefes recentes da ONU cumpriu dois mandatos consecutivos no cargo.
"O nome de Lula seria uma honra para a América Latina, mas é tradição que os secretários-gerais se candidatem à reeleição, e não vejo razão pela qual o secretário-geral Ban Ki-moon não se candidate a um segundo mandato", me disse o embaixador do Chile na ONU, Heraldo Muñoz.
Outros observaram que, se por alguma razão Ban decidir não se candidatar, países asiáticos podem querer um de seus próprios diplomatas ocupando o cargo por mais cinco anos, respeitando a tradição pela qual cada região do mundo ocupa o cargo por dois mandatos. E muitos chamam a atenção para o fato de que Lula não fala inglês ou francês.
Minha opinião: o mais provável é que Ban consiga um segundo mandato, apesar de ser possível que muitos países desejem uma figura de mais destaque para chefiar a ONU. É mais provável que seja oferecido a Lula o cargo de chefe da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), sediada em Roma, cujo diretor atual, o senegalês Jacques Diouf, ocupa o cargo desde 1994 e se prepara para deixá-lo.
Lula seria o candidato perfeito para esse cargo, devido a seu programa bem-sucedido de combate à fome no Brasil e ao reconhecimento internacional que este lhe valeu.
É verdade que Lula pode ver o cargo como estando abaixo do que merece, mas -em vista de suas posições pavorosas sobre os direitos humanos- seria o lugar perfeito para ele.

Tradução de CLARA ALLAIN

ANDRES OPPENHEIMER DO "MIAMI HERALD"

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