segunda-feira, 26 de abril de 2010

As 'ameaças' da Alba

O Estado de S. Paulo - 26/04/2010

Talvez os signatários da declaração final da reunião de cúpula da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), realizada na semana passada em Caracas, acreditem na eficácia daquilo que prometeram ou declararam, como a nova "exigência" ao governo dos Estados Unidos para "pôr fim imediato e incondicional ao bloqueio econômico contra Cuba". Afinal, no documento, reafirmaram a unidade do bloco do qual tirarão forças para alcançar a independência necessária para erigir uma "América nova", que rompa com o "imperialismo" e caminhe na direção do socialismo. É difícil, no entanto, imaginar que o documento tenha causado alguma preocupação ou tenha tido alguma repercussão em Washington, ou em outra capital importante do hemisfério, se é que alguém nessas capitais tomou conhecimento do seu conteúdo.


Assinam o documento os chefes de governo de Antígua e Barbuda, Bolívia, Cuba, Dominica, Equador, Nicarágua, São Vicente e Granadinas e da Venezuela. Participaram da reunião como convidados especiais os presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, e da República Dominicana, Leonel Fernández. Nova reunião foi marcada para os dias 3 e 4 de junho na cidade equatoriana de Otavalo.

O encontro de cúpula da Alba e sua declaração, intitulada Manifesto Bicentenário de Caracas, foram dois dos itens da intensa programação organizada pelo governo do presidente Hugo Chávez para comemorar o bicentenário da instalação da primeira forma de governo autônomo do país, quando as tropas de Napoleão depuseram o rei da Espanha (a independência da Venezuela só se concretizou em 24 de junho de 1821).

Chávez, em traje militar de gala, abriu as comemorações afirmando que a Venezuela "nunca mais será colônia ianque nem de ninguém" e que "chegou a hora de nossa verdadeira independência, 200 anos depois". Alguns dirigentes estrangeiros convidados de Chávez completaram o discurso. "Estamos aqui construindo uma América nova e a "grande pátria" com que sonharam os libertadores", disse o equatoriano Rafael Correa. "Nossos povos acordaram."

Aviões russos, americanos e chineses do governo bolivariano da Venezuela sobrevoaram o local das comemorações, enquanto em terra desfilavam soldados, membros das milícias formadas por Chávez, índios identificados como "socialistas" pelos apresentadores e funcionários da estatal de petróleo PDVSA. Os grupos gritavam palavras de ordem socialistas.

Mas, embora tenha evocado ? como sempre faz em ocasiões como essa ? a figura do libertador Simón Bolívar e tenha sido chamado de "comandante em chefe da revolução bolivariana", Chávez não foi a figura principal das comemorações. Esse papel coube à presidente argentina, Cristina Kirchner.

Seria a presença de Kirchner, além de outros dirigentes, em Caracas, uma demonstração da liderança que Chávez imagina ter sobre a região e do apoio à ideologia do "socialismo do século 21" por ele pregada?

No caso de Cristina Kirchner, em especial, são outros os motivos da adesão às comemorações de Chávez, e mais práticos. A forte ligação entre os governos argentino e venezuelano não se deve a identidades ideológicas. A principal razão para a proximidade entre Kirchner e Chávez é de natureza financeira.

Desde a presidência de Néstor Kirchner, antecessor e marido de Cristina, a Venezuela apoia financeiramente o governo argentino. A partir de 2005, o governo venezuelano comprou mais de US$ 9 bilhões em títulos da dívida argentina. Em visita anterior a Caracas, Cristina Kirchner lembrou "a ajuda financeira que (Chávez) nos deu quando a Argentina não tinha acesso ao crédito por causa da suspensão dos pagamentos da dívida em 2003". Em contrapartida, Chávez contou com o apoio aberto da Argentina à sua pretensão de ingressar no Mercosul.

Para dispor desse tipo de apoio por mais tempo, Chávez precisará conceder novas ajudas a seus aliados. Discursos, apenas, não bastam. Mas a crise financeira que vive seu governo, em razão dos erros que cometeu e vem cometendo, esgotou sua capacidade de auxiliar outros governos. Agora, é ele quem depende de ajuda do exterior.

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