segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cegueira ideológica


O Globo - 12/04/2010

É interpretação corrente que a diplomacia terceiro-mundista do governo Lula cumpre a função, junto ao PT e aliados à esquerda, de compensar o mau humor com a política de estabilização econômica, considerada “neoliberal” naquelas hostes. Para um Meirelles no BC e um Palocci no Ministério da Fazenda, afagos em Hugo Chávez, o caudilho venezuelano.

Palocci foi substituído por Guido Mantega, menos atento a questões fiscais; o BC, porém, teve sua autonomia tácita garantida, sob a guarda do próprio Lula.

O exercício deste esquerdismo tardio, de ranço nacionalista no figurino do pós-guerra, começou com o bombardeio da Aliança de Livre Comércio das Américas (Alca) — na visão dos novos donos do poder em Brasília, em 2003, contaminada pelo enxofre demoníaco dos Estados Unidos.

Com Chávez em Caracas, em franca aplicação do plano de garroteamento da democracia pelo manejo sibilino do instrumento formalmente democrático do plebiscito, e seus discursos histriônicos antiamericanistas, Lula e o “Itamaraty do B” tiveram companhia na operação de sabotagem da Alca. (Na prática, a Alca é a extensão do mercado comum Nafta — Canadá, Estados Unidos e México — até a Terra do Fogo, no extremo Sul das Américas). Depois, com a chegada do boliviano Evo Morales e do equatoriano Rafael Correa, a frente contra a Alca/Estados Unidos foi ampliada.

Em vez de se negociar a sério com os americanos, partiu-se para a rejeição pura e simples da aliança comercial, devido a razões ideológicas. A aposta foi jogar todas as fichas na Rodada de Doha, a grande negociação multilateral, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), em que a redução de subsídios e barreiras agrícolas no Primeiro Mundo, fatores de distorção no comércio mundial, contra interesses dos menos desenvolvidos, seria trocada por mais importações de bens industriais e serviços pelas economias ditas emergentes e subdesenvolvidas.

Não deu certo. O Brasil, um dos líderes do G-20, ainda tentou flexibilizar a posição em busca de algum acordo, mas não teve apoio daqueles que considerava aliados estratégicos: Índia, China e, no âmbito do Mercosul, Argentina. Ficou sem Alca e sem Doha, no pior dos mundos.

E a lição não foi aprendida, a julgar pela aceleração do protagonismo desta “diplomacia do B”, provavelmente devido a razões eleitoreiras, para manter a tropa de esquerda unida em tempo de eleições.

A aproximação com o Irã de Ahmadinejad — mantido no poder numa eleição fraudada — e da Guarda Revolucionária, no momento em que o regime ditatorial de Teerã se isola ainda mais no mundo, devido a uma programa nuclear no mínimo suspeito, ultrapassou os limites do previsível e da racionalidade.

Afinal, se o Brasil tem interesse em ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, o comportamento da sua diplomacia teria de ser em sentido oposto.

Mas, não. Quando, além da Rússia, a China, aliada de primeira hora do Irã, admite estudar a proposta de mais sanções contra Teerã, inamovível diante de evidências e até provas da ampliação do seu suspeito programa nuclear, o “Itamaraty do B” coloca o país na rota do isolamento diplomático. É o fim do projeto de ser influente no conselho, de ter poder de veto no organismo como as grandes potências. A que ponto chega a marcha da insensatez quando movida pela cegueira ideológica.

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