sábado, 3 de abril de 2010

Cuba no atoleiro dos Castro


Editorial - O Globo - 03/04/2010

Em recente artigo, o colunista Thomas Friedman, do “New York Times”, escreveu que, “no Oriente Médio, o que os líderes lhe dizem privadamente, em inglês, é irrelevante; o que importa é o que eles dizem a seu povo, em sua própria língua”.

O mesmo se poderia aplicar às ditaduras latinoamericanas. A agressiva retórica de Chávez contra os EUA, em público, não o impede de continuar negociando a venda de seu petróleo para os EUA. Cuba, o parque temático stalinista do Caribe, tenta manter a coerência e segue impávida, apesar da crescente penúria da população — segundo a revista “The Economist”, citando dados oficiais, nos primeiros dois meses do ano o estoque de alimentos nos mercados de Havana era um terço menor do que no ano passado. Três furacões em 2008 pioraram tudo. Mas já há no governo quem faça planos para investimentos americanos pós-embargo.

Não existe descontentamento popular aberto porque, se houver, será punido, no mínimo, com a prisão. A ditadura castrista mostrou mais uma vez sua face cruel em fevereiro, ao deixar morrer o dissidente Orlando Tamayo, depois de 85 dias de greve de fome contra o regime.

Para desdouro da imagem do Brasil, o presidente Lula, em visita à ilha, se solidarizou com os irmãos Castro. Até quinta, vivia situação muito difícil o jornalista Guillermo Fariñas, sem comer há dois meses para chamar a atenção sobre os demais presos de consciência.

Cuba perdeu importantes apoios internacionais na área artística e cultural. Em 2003, José Saramago, o escritor português Prêmio Nobel de Literatura, publicou o famoso artigo que começa com o período: “Cheguei até aqui. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho e eu fico”, numa reação à execução de três dissidentes.

No mesmo ano, romperam com o regime o dramaturgo italiano e Prêmio Nobel, Dario Fo, e o diretor e produtor de filmes espanhol Pedro Almodóvar.

Pois agora os cantores e compositores Pablo Milanés e Silvio Rodríguez, ídolos da música cubana que já foram entusiastas da revolução, pedem abertamente reformas. Milanés, que chegou a dedicar shows a Fidel, disse ser “a favor das mudanças que Raúl prometeu, mas não cumpriu”. Para Rodríguez, “este é um momento no qual a revolução e a vida nacional pedem aos gritos uma revisão de muitas coisas, muitos conceitos e até instituições”.

O governo cubano culpa pela situação de penúria o embargo comercial e econômico imposto pelos EUA há 50 anos, e de fato ele tem um peso imenso. O presidente Obama tomou medidas para facilitar o intercâmbio entre exilados cubanos em Miami e parentes na ilha. Mas espera, para considerar o fim do embargo, passos do governo cubano na direção da abertura do regime. Fica insustentável, assim, a posição do chanceler Celso Amorim, que relaciona a dureza do regime cubano à manutenção do embargo, sem exigir que, em troca, o governo de Havana faça concessões.

Lembrando a frase de Friedman, o discurso monolítico da ditadura castrista, para consumo interno, não impediu que seu ministro do Turismo, Manuel Marrero Cruz, se reunisse, em Cancún, com executivos americanos para começar a delinear planos de investimentos para o pós-embargo. Se a esquerda que está no poder em Brasília ajudasse em aconselhamentos aos irmãos Castro, em vez de se solidarizar com a ditadura deles, essa transição se poderia fazer de forma mais suave e rápida, para o bem do povo cubano.

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