terça-feira, 6 de abril de 2010

Entrevista - Guillermo Fariñas

Ele já tem em mente os preparativos para sua despedida. Deseja que o ex-presidente polonês Lech Walesa deposite flores sobre sua tumba. Também quer que Willy Chirino, músico cubano exilado em Miami, visite seu túmulo e cante Ya viene llegando la libertad (Já vem chegando a liberdade). “Hoje, que meu povo vive iludido, eu me sinto inspirado, e um som estou cantando, anunciando a todos os meus irmãos que nosso dia já vem chegando”, afirma a letra da música. O jornalista e dissidente político Guillermo Fariñas Hernández, 49 anos, sabe que sua morte está próxima.

Depois do discurso desafiador do presidente Raúl Castro, no domingo, o homem que completou hoje 42 dias em greve de fome já não se apega à vida. Atende ao telefone, na unidade de terapia intensiva do Hospital Provincial Arnaldo Millian Castro (em Santa Clara, a 268km de Havana), com a voz ainda incrivelmente forte. “Minha morte já está decretada”, afirmou Fariñas ao Correio, por telefone.

Raúl Castro disse anteontem que não cederá jamais a chantagens, de nenhum país ou conjunto de nações. “Está se fazendo o possível para salvar sua vida (de Fariñas), mas se não mudar sua atitude autodestrutiva, será responsável, junto com seus patrocinadores, pelo desenlace que tampouco desejamos”, declarou o presidente. Guillermo Fariñas anunciou que não mais fará qualquer contato com autoridades cubanas e mandou novo recado ao presidente brasileiro: “Se eu morrer, meu sangue também manchará as mãos de Lula”.

“Eu escolho morrer”

O presidente Raúl Castro afirmou que não cederá a chantagens de outros governos e que tem feito o possível para salvar sua vida. Como vê esse discurso?
Nós vemos essa declaração como ela é: um assassinato de Estado. Trata-se do próprio presidente dizendo que vai matar um cidadão que se opõe politicamente a ele. Depois do discurso de Raúl Castro, já não há nada a falar com as autoridades. Já decretaram minha morte e eu vou morrer. A partir desse momento, eu decidi não ter qualquer tipo de contato com autoridades políticas.

Quais são suas condições de saúde hoje?
Neste momento, tenho a pressão arterial em 100 por 60. Não temos febre, como tivemos na semana passada. Parece que a infecção foi debelada. Agora estamos enfrentando a hipoglicemia. Todavia, os médicos ainda não sabem explicar o porquê. Temos queda do nível de açúcar no sangue e suamos muito. Seguimos com a alimentação intravenosa. Completei ontem (domingo) 40 dias de greve de fome.

O senhor acredita que conseguirá resistir por muito tempo? Está com medo de morrer?
Como? Minha morte já está decretada pelo presidente da República. A única possibilidade dada pelo presidente da República é que eu me renda ou que eu morra. Eu escolho morrer.

Como vê o gesto de cubanos que iniciaram greve de fome, em solidariedade ao senhor?
Se estão começando a fazer greve de fome, têm nosso apoio. É uma causa comum, em resposta ao assassinato de Orlando Zapata Tamayo. Estamos demandando que ponham em liberdade os presos políticos mais doentes.

O Departamento de Estado americano alertou que o governo de Cuba tem “responsabilidades fundamentais” pelas condições de seus presos...
Alguém que assume o governo de um país é responsável por seus cidadãos. O governo de Raúl Castro se responsabiliza por tudo o que ocorrer com um grupo de cidadãos e por Orlando Zapata Tamayo, que foi assassinado. O governo cubano não cumpre com as normas mínimas de tratamento aos presos. Há uma ação coordenada das nações e dos parlamentos de governos democraticamente eleitos pressionando Cuba. Eles desejam que o caso de Zapata seja levado ao Conselho de Segurança da ONU como crime de lesa humanidade.

O presidente Lula mantém-se em silêncio diante de seu protesto. O que pensa sobre isso?
Lula tem as mãos manchadas de sangue, assim como Raúl Castro, pela morte de Orlando Zapata Tamayo. Se eu morrer, meu sangue também manchará as mãos de Lula. Isso o tempo é que vai mostrar… A cumplicidade…

Caso o senhor morra, pensa em receber que homenagens?
Sou admirador do ex-presidente Lech Walesa. Quando Cuba se tornar livre, quero ter garantias de que ele coloque flores sobre minha tumba. Peço ao músico cubano-americano Willy Chirino que, quando ele puder vir a Cuba, cante sobre meu túmulo a música Ya viene llegando la libertad.


Correio Braziliense

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