sexta-feira, 2 de abril de 2010

Mais uma matança de inocentes


DESTRUIÇÃO E LUTO
À direita, vagão destruído e corpos de vítimas da explosão em Lubianka.
Ao lado, Medvedev presta homenagem aos mortos na estação


A banalização do terror faz a morte de 39 pessoas em Moscou
ser vista por analistas e jornalistas como apenas uma ação estratégica
dos extremistas chechenos. Não é. Terror não tem perdão


Nada é capaz de relativizar cada vida interrompida, cada membro amputado e cada momento de dor das vítimas do duplo atentado ao metrô de Moscou, na segunda-feira 29. Nada. Não pode existir "mas", "no entanto", "por outro lado"... Terror não tem perdão. É preciso rejeitar as justificativas mais comuns dos terroristas. A saber:

• Estamos apenas dando o troco por agravos de mesma monta cometidos contra nosso povo.

• Foi a única arma que nos restou para lutar contra os invasores.

• O mundo precisa conhecer nossa causa.

• As vítimas que fizemos não são inocentes. São coniventes com o que seu governo faz contra nossas próprias mulheres e crianças.

Analistas e jornalistas deram vazão a essas justificativas durante toda a semana passada, como se a carnificina no metrô moscovita fosse apenas o lance de um videogame geopolítico. Coube a Ludmila Alexeyeva, de 82 anos, dar as dimensões humanas e civilizadas da tragédia. Dois dias depois de os ataques suicidas terem matado 39 pessoas e deixado setenta feridos, Alexeyeva – odiada no Kremlin por denunciar as atrocidades militares russas nas regiões separatistas do Cáucaso – recusou-se a participar de um protesto contra o governo e foi depositar flores para os mortos do atentado. A ativista deixou clara uma lição que escapou aos frios analistas e descuidados jornalistas: a civilização é um bem tão valioso quanto frágil e não há idealismo político ou causa que justifique romper suas regras matando pessoas inocentes.

Os autores dos atentados, um grupo terrorista da Chechênia, uma república caucasiana da Federação Russa, queriam atingir o maior número de vítimas possível. A primeira explosão ocorreu às 7h57 no segundo vagão do trem que estava parado na estação Lubianka, uma das mais movimentadas da cidade. Como as portas estavam abertas, passageiros e pessoas que esperavam na plataforma foram atingidos. A segunda bomba explodiu às 8h36 no terceiro vagão de um trem na estação Parque Kultury, a 6 quilômetros de distância. A maioria das vítimas estava a caminho do trabalho, mas também havia estudantes universitários e crianças – segunda-feira foi o dia de retorno às aulas depois de uma semana de recesso da primavera. Todos os mortos tinham entre 16 e 64 anos, como Yelena Agoshkova, de 22, uma estudante de línguas que estava a uma semana de terminar o curso. Outra vítima, Vsevolod Makarevich, de 34 anos, estranhou o atraso de seu trem e ligou para a mulher pedindo que procurasse na internet informações sobre um possível acidente no metrô. Ela ligou de volta alguns minutos depois, mas preferiu não contar sobre a explosão na estação Lubianka porque o marido já havia embarcado. O casal ainda falava ao telefone quando a segunda bomba despedaçou o corpo de Makarevich e o de outros onze passageiros indefesos. O celular ficou mudo.

O AUTOR DA CARNIFICINA
Umarov é o chefe dos terroristas chechenos


As imagens do circuito de vídeo do metrô indicam que os ataques em Moscou foram realizados por duas mulheres-bomba. A primeira aparentava uns 40 anos. Ela carregava uma bolsa com o equivalente a 4 quilos de dinamite misturados a uma razoável quantidade de parafusos, cuja função era espalhar estilhaços. A segunda mulher-bomba, de quem foram encontrados apenas os membros e a cabeça, tinha cerca de 20 anos e feições que sugerem retardo mental. As câmeras de segurança das estações – instaladas após um atentado que matou quarenta passageiros em 2004 – também revelam que as terroristas estavam sendo supervisionadas por outras duas mulheres e, possivelmente, um homem. A polícia de Moscou acredita que o trio acionou as bombas a distância usando telefones celulares. O objetivo seria evitar que as mulheres-bomba desistissem do ataque, como já ocorreu no passado. A tática denota a covardia daqueles que, no conforto de seu esconderijo no Cáucaso, planejaram os atentados: as mulheres que eles recrutaram para matar e morrer não tiveram escolha. Nos últimos dez anos, os terroristas chechenos lançaram contra a Rússia 640 ataques fatais. Destes, 65% tiveram a participação de viúvas negras, mulheres que, segundo a propaganda dos grupos terroristas, resolveram vingar a morte de maridos e filhos por militares russos. A verdade é bem menos heroica. Muitas das mulheres foram vendidas por sua própria família aos terroristas porque se tornaram um estorvo financeiro ou feriram algum costume islâmico.

A autoria dos ataques em Moscou foi reivindicada por Doku Umarov, que quer instalar um emirado na Chechênia. Obviamente, o posto de emir seria ocupado por ele próprio. Umarov foi também o responsável por orquestrar o massacre de 186 crianças em Beslan, na Ossétia do Norte, em 2004, e o atentado contra o expresso Moscou-São Petersburgo, em novembro do ano passado, que matou 26 pessoas. "A história mostra que os métodos terroristas jamais deram vitória a uma causa", disse a VEJA a americana Mia Bloom, autora do livro Morrendo para Matar: o Aliciamento do Terrorismo Suicida. De fato, Umarov e seu grupelho de fanáticos islâmicos nem perdem tempo enfeitando seu sadismo com alguma reivindicação prática. Seu objetivo é simplesmente paralisar a sociedade russa com o vírus do medo. O presidente Dimitri Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin prometeram "caçar até no esgoto" os responsáveis pela matança da semana passada. Serve ao mundo civilizado que o governo russo encontre, prenda e puna exemplarmente os assassinos.


Um inimigo comum


AMIGOS PARA SEMPRE?
Obama e Putin na Casa Branca,
no ano passado: acordo nuclear
e sanções ao Irã


Poucas horas depois dos ataques no metrô de Moscou, o presidente americano Barack Obama ligou para o seu colega russo Dimitri Medvedev e ofereceu ajuda para caçar os culpados. A Rússia e os Estados Unidos descobriram na luta contra o terrorismo islâmico um ponto de convergência em política externa. A afinidade vem crescendo desde os atentados de 2001 em Nova York, que levaram o então presidente russo Vladimir Putin a fazer oferta semelhante à de Obama. Ao longo dos últimos 100 anos, Rússia e Estados Unidos, protagonistas da Guerra Fria, estiveram na maior parte do tempo em posições antagônicas. A mais notável exceção ocorreu durante a crise do Canal de Suez, em 1956. Naquele ano, França e Inglaterra criaram, sem o conhecimento dos Estados Unidos, um plano militar para tomar o canal, nacionalizado pelo Egito. Os dois países europeus temiam que os egípcios interrompessem o fornecimento de petróleo para o Ocidente. Israel iniciou a invasão, abrindo caminho para as tropas francesas e inglesas. A União Soviética, que tinha o Egito em sua esfera de influência, ameaçou intervir militarmente. Já os Estados Unidos, sentindo-se traídos pelos aliados, lideraram uma série de resoluções na ONU para dar um fim à tomada de Suez. A insólita parceria deu certo, e ingleses, franceses e israelenses acabaram recuando. Americanos e russos mostraram à Europa quem eram os novos donos do mundo no pós-guerra.

Com o fim da Guerra Fria e a derrota material e moral do comunismo soviético, o antagonismo entre os dois países foi substituído por uma relação ambígua. A Rússia passou a ver os Estados Unidos ora como um exemplo a ser imitado, ora como uma potência arrogante. O segundo sentimento prevalece toda vez que a Rússia percebe que sua esfera de influência remanescente está sendo invadida. Foi assim em 1999, durante o bombardeio da Sérvia, aliada dos russos, pela Otan; em 2003, por causa da invasão americana do Iraque, também sob a esfera de influência de Moscou; e em 2008, quando a Ucrânia e a Geórgia, ex-repúblicas soviéticas, foram autorizadas a iniciar o processo de adesão à Otan. Atualmente, as relações entre Estados Unidos e Rússia passam por uma boa fase. O governo Obama parece compreender que a Rússia quer apenas ser reconhecida como um dos polos do mundo multipolar. Com essa abordagem, os americanos já conseguiram acertar os termos de um novo acordo de redução do arsenal atômico com os russos e estão prestes a garantir o apoio de Moscou às sanções contra o programa nuclear do Irã. Rússia e Estados Unidos no mesmo barco, como em 1956.


Revista Veja

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