terça-feira, 27 de abril de 2010

Passaporte para o passado


O Globo - 27/04/2010



Daniel Ortega é hoje muito mais discípulo de Chávez do que sandinista e já impôs à Nicarágua o kit bolivariano.

Conseguiu na Suprema Corte suspender o dispositivo constitucional que proíbe a reeleição presidencial. Com a aproximação do fim do mandato de juízes aliados, renovou-o por decreto. E, se a oposição questiona essa manobra na Assembleia Nacional, envia uma turba — em que se misturam militantes bravios com membros de gangues armadas — para depredar o Parlamento e ameaçar os deputados. Assim, o velho Ortega, um dos líderes da Revolução Sandinista que derrubou a ditadura Somoza em 1979, foi presidente de 1985 a 1990 e se reelegeu em 2006, mantém as instituições do país sob pressão. Até agora, está aberta a “janela” para concorrer à reeleição em 2011.

Como se sabe, a tática chavista é usar as instituições democráticas para atacar a democracia. Contradição? Só formal. O primeiro passo é se eleger presidente. Daí para a frente, vale tudo para fortalecer o Executivo, aumentar o mandato do presidente, se possível com a reeleição ilimitada, e enfraquecer o Legislativo e o Judiciário. A oposição passa a sofrer ameaças e monta-se um rolo compressor de propaganda estatal contra a liberdade de expressão.

Inicia-se uma campanha permanente contra a imprensa que ousa ser independente, crítica.

Na Venezuela, Chávez fechou a principal rede de TV e esterilizou outra.

O desmesurado aumento do poder do Estado é outro item obrigatório do “socialismo bolivariano”. Estatizase a economia e, com isso, os produtos somem das prateleiras, a inflação sobe, o descontentamento popular aumenta. Tudo isso acontece na Venezuela onde, recentemente, Chávez afirmou que eleição boa é a que seu partido, o PSUV, vence. Do contrário, vence “a burguesia”, que deve ser “varrida”. Há tensão nas hostes chavistas diante das eleições de setembro, em que a oposição tenta se apresentar unida. O país se aproxima de uma encruzilhada.

A Argentina deveria ser um caso à parte. Mas o governo Kirchner, diante da vulnerabilidade das contas externas, se socorreu dos petrodólares de Chávez e, assim, se tornou um “aliado” do caudilho. Na comemoração dos 200 anos do início da independência da Venezuela, Cristina Kirchner foi uma das convidadas de honra, mesmo seu país não participando da Alba, o clube bolivariano.

Outro ponto de contato entre a Argentina e o chavismo é a truculência do governo em relação à imprensa. Com sua obsessão em “regular” a mídia, muito difundida no continente, Cristina abriu guerra ao Grupo Clarín, um dos principais do setor no país. A Casa Rosada não vê qualquer problema ético em usar uma questão pessoal da proprietária do Grupo — a ação judicial para verificar se seus dois filhos adotivos seriam ou não filhos de desaparecidos políticos da ditadura militar — para aumentar a pressão sobre os meios de comunicação.

Assim, boa parte do continente embarca na aventura chavista, passaporte para o passado — uma era de populismo autoritário que mina as instituições democráticas no continente.

Instituições que resistem e, felizmente, funcionam a contento em países como Brasil, Chile, Uruguai e Colômbia. Mas é preciso vigilância constante.

Fórmula chavista faz Nicarágua e até a Argentina darem marcha à ré.

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