sábado, 10 de abril de 2010

A profanação do túmulo de Tancredo


Candidatos que obedecem cegamente as instruções de marqueteiros estão sujeitos a vexame, em tudo semelhante ao protagonizado pela candidata presidencial em São João del Rei.

E
xalando o odor da farsa, ante o olhar constrangido do bom Patrus, a candidata depositou flores na sepultura de Tancredo Neves, tentativa burlesca de reconciliação do petismo com o ex-presidente após 25 anos de repudiá-lo com agressividade.

Se em Ouro Preto depositar flores no Panteon da Inconfidência poderia ser encarado como peça publicitária - tentativa que também adquire ares de mistificação, aceita com naturalidade pelos ouro-pretanos, acostumados a essas encenações -, a visita incorporada do PT ao jazigo do líder mineiro aconteceu com atraso, depois que expulsou de seus quadros os três parlamentares paulistas que votaram em Tancredo no Colégio Eleitoral e recusou publicamente participar do projeto de união nacional comandado pelo mineiro morto antes de assumir a Presidência.

O
s responsáveis pela publicidade da candidata cometeram grotesco escorregão histórico, como se fosse possível ser levada a sério uma ação que adquiriu insólita expressão de reles e tosca exploração eleitoral de um sentimento que é caro e nobre aos mineiros. Por certo, há de pagar preço alto pela imprudência e impudência política no momento próprio, pois mesmo recebendo o perdão, como é da índole mineira, para o gesto anterior de repulsa aos acenos pacificadores e patrióticos de Tancredo, os nascidos nestas terras não se esquecem facilmente do quanto repercutiram negativamente os gestos de hostilidades de Lula e seus companheiros a todas as propostas conciliatórias, feitas em nome de uma união nacional que conseguiu criar condições para a consolidação do processo democrático, de que mais tarde se beneficiariam.

Os olhos já enfastiados de velho combatente político jamais contemplaram cena tão canhestra e até mesmo provocadora para os brios dessa gente valorosa que mora entre estas montanhas, que, como diz o presidente Itamar Franco,
"ninguém nivela".A infeliz proposta marqueteira, inventada para ajudar a melhorar a situação da candidata em Minas Gerais, serviu tão somente para ressuscitar velhas amarguras que jaziam nas sombras do esquecimento e desnudou por completo as fragilidades da candidata em seu propósito de angariar apoio dos mineiros.

O então candidato Lula recusou e combateu todas as propostas de união nacional iniciadas pelo presidente Itamar Franco, tendo comandado a expulsão da deputada Luiza Erundina por haver aceitado participar do ministério do grande mineiro. Enfim, o petismo, ao qual a candidata se integrou recentemente para efeitos eleitorais, não resgatou seu débito histórico com Minas e muito menos com Tancredo, cuja sepultura sofreu abalos pelo peso da insinceridade e da farsa depositadas sobre ela.A profanação lembrou Joaquim Silvério dos Reis, agravada por um sem número de estroinices ditas depois pela candidata bonifrate. Valha-nos Deus!




Murilo Badaró
Presidente da Academia Mineira de Letras

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