quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sexo, Celibato, pecado, e medievalismos!

São Josemaria sobre um fundo abstrato em colagem. Assim é o retrato a óleo do fundador do Opus Dei pintado pela artista Inmaculada Cuesta a pedido de pessoas que têm devoção ao santo no Congo.



São Paulo tem mistérios. Acabo de ler um depoimento insólito, relato que imaginaríamos situado nalguma aldeia espanhola ou italiana, há uns dez séculos atrás, em plena Idade Média. No entanto, acontece nesta metrópole, em pleno século XXI. Falo do livro Memórias Sexuais no Opus Dei, de Antonio Carlos Brolezzi. Não é livro que eu recomende a quem anda em busca de boa literatura. Apenas para quem gosta de informar-se sobre os abismos da miséria humana.

Brolezzi, 40 anos, professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP, casado pela segunda vez e pai de uma filha, é mais uma destas pessoas que, sem ter maiores conhecimentos de história ou filosofia, caiu nas mãos de uma seita de fanáticos. Pertence àquela estirpe de pessoas como Salvador Dali, Luiz Carlos Prestes e Louis Althusser, que só foram conhecer sexo tardiamente. No caso em questão, aos 30 anos. Convidado para um curso de Astronomia por professores da USP, foi aos poucos cooptado para a Opus Dei.

“Quando eu entrei na USP para cursar Matemática começaram a me ligar, não me deixavam em paz um segundo. Criaram uma crise artificial de vocação. Vendem que somos especiais, que temos uma luz na testa, e ficamos seduzidos. Passamos a ter acesso a uma porta secreta, mostram uma sala onde só eles se reúnem. Você passa a ter uma vida secreta, não pode contar a sua família”.
Brolezzi entrou para a Opus Dei aos 19 anos, sem jamais ter tido uma relação sexual, e logo chegou à condição de numerário, isto é, integrou-se oficialmente à organização. Uma vez nela, não podia olhar para mulheres, tinha de cuidar-se nos ônibus ou metrô para não roçar os seios de alguma mulher, suas leituras de jornais ou revistas eram previamente censuradas por seus superiores. Não estava autorizado nem mesmo a ler outdoors. Em tais confinamentos de jovens, a masturbação obviamente é a regra. Brolezzi tinha um curioso método para a prática, desenhava uma vagina em um caderno. Seu confessor ficou intrigado: como ele sabia desenhar a coisa, se nunca havia visto uma? “Eu disse que imaginei como se fosse uma boca, só que na vertical”.
As restrições à masturbação na comunidade nos fazem voltar ao século XVIII, mais precisamente a 1710, quando o Dr. Tissot escreveu um dos clássicos da literatura obscurantista, L’Onanisme – dissertation sur les maladies produites par la masturbation. Neste monumento à estupidez humana, o autor nos mostra diversos aparelhos para impedir o onanismo, entre eles um cinturão e um colete antimasturbação, que serviam para impedir o toque do pênis. Para mortificar a carne, todo numerário devia portar, duas horas por dia – e todos os dias, exceto domingos e festas – um cilício, uma malha pontiaguda amarrada na coxa, que fere a pele com pontas de metal. Aos 60 anos, lhes é concedido o privilégio de não mais tomar banhos frios. Para evitar os atos solitários, seu confessor recomendou-lhe costurar uma camisa de flanela a um jeans e vestir oconjunto com o lado posterior pela frente, de modo a não ter acesso ao próprio sexo. Como em 1710, a masturbação continuava a ser vista como doença mental.

Tais precauções obsessivas com a sexualidade só produzem uma coisa: comunidades de erotômanos. A masturbação era moeda corrente. Sendo pecado mortal, os numerários não podiam comungar sem antes serem absolvidos pela confissão. A imensa fila nos confessionários tornava-se algo humilhante, pois denunciava os pecadores. Para afastar as tentações, Brolezzi adormecia rezando o terço. Em certas ocasiões, acordava com o instrumento de preces enrolado no instrumento de pecado.

Brolezzi fez mestrado na USP, entrou em ano de doutorado e, apesar do contato diário com suas colegas, continuava sem saber o que fosse a tal de vagina. Neste ponto da leitura, uma pergunta me passou pela cabeça. Como pode alguém viver numa metrópole sem ter idéia do que seja uma vagina, afinal elas estão mais ou menos expostas em qualquer banca de jornais? Minha pergunta era pertinente. Os membros da Opus Dei estão proibidos de olhar bancas de jornais e mais ainda, devem desviar de calçada se vêem uma pela frente. As restrições à leitura são de tal ordem que a própria bibliografia do doutorado em matemática tinha antes de ser revisada pelo seu confessor. Aos 30 anos, virgem ainda, foi levado por uma menina a um motel. Aconteceu o que seria de esperar-se, não conseguiu consumar a coisa.

Fiz meu ginásio em um colégio de oblatos e entendo as angústias de Brolezzi. Cilício e macacão anti-masturbação à parte, vivi todas estas peripécias. Pecado, confissão, absolvição, contrição, estado de graça. E de novo a monótona sucessão: pecado, confissão, absolvição, contrição, estado de graça. Vivia em permanente tensão, sempre em pânico antes de cada confissão, sempre humilhado pelo confessor a cada fim-de-semana e sem nunca chegar a um equilíbrio entre mim e meu sexo. As piores noites eram as de tempestade. Direis que eu era um megalomaníaco. Até pode ser. O fato é que a cada raio que caía dos céus eu sentia que o Deus todo-poderoso os endereçava a este temeroso pecador.

Até que um dia decidi ler a Bíblia com espírito crítico. Encerrei-me por três dias em meu quarto e, ao sair do quarto, estava liberto de toda aquela tralha opressiva. Não havia nada na Bíblia que determinasse aquelas punições tremendas mencionadas nos catecismos. Minha sexualidade deixou de ser sofrimento, mas motivo de alegria. Abandonei a idéia de pecado e de ilhapa também a de Deus. Bem entendido, isso ocorreu há mais de meio século atrás.

Libertei-me cedo dos grilhões e tratei de recuperar o tempo perdido.
Falei de início nos mistérios de São Paulo. É espantoso constatar que estas torturas se repetem hoje, 2006, no espaço de uma megalópole cosmopolita, onde o sexo é onipresente nas ruas, praias e parques, bancas de jornais, outdoors e mesmo no vestuário das transeuntes. Mas a Opus é algo muito maior e nada tem a ver, em suas origens, com São Paulo. Foi fundada em 1928, pelo espanhol Josemaria Escrivá de Balaguer, monsenhor recentemente canonizado por João Paulo II. Segundo o vaticanista John Allen Jr., a Obra tem 85 mil seguidores (1.700 no Brasil), um patrimônio na casa do 2,8 bilhões de dólares e milhões de admiradores. A Opus sempre procurou se manter oculta e, não fosse o depoimento de suas ovelhas desgarradas, não teríamos conhecimentos destas barbaridades inconcebíveis no Ocidente hodierno. Depois ainda há quem se escandalize quando os muçulmanos cortam o clitóris de suas mulheres ou quando fustigam os próprios corpos até brotar sangue. A estupidez, além de universal, parece ser eterna.

A carne é fraca – diziam os padres e moralistas de meus dias de colégio. Sempre discordei deste axioma. A carne é forte, penso, tanto que tem sido fator de libertação de milhares de pessoas da opressão do obscurantismo. Aconteceu comigo, aconteceu com seminaristas e padres que não suportaram viver em conflito com o próprio corpo. Expulso do ginásio dos oblatos, antes de abandonar definitivamente a crença nas coisas do Além, militei algum tempo em JEC e JUC. Tive contato com padres mais abertos e até hoje lembro com afeto do Carlos Pretto, que costumava dizer: “Mulher e religião não se discute, se abraça”. Era também dele a frase: “Se batina fosse bronze, que badaladas!”

Praticamente todos os padres que tiveram contato conosco – isto é, com jovens, moças e rapazes – acabaram largando a batina. Não conseguiram resistir à tentação daquelas militantes árdegas e todas hormoniosas que lhes confidenciavam seus pecados mais íntimos no silêncio das sacristias. “É vício qualquer tipo de antinatureza” – escreveu Nietzsche. “A mais viciosa espécie de homens é o padre: ele ensina a antinatureza”. Brolezzi, o doutorando da USP que não sabia como era o sexo feminino, libertou-se.

Graças à carne. Quantos de seus colegas de Opus ainda não se torturam com o cilício e a abstenção sexual? Difícil saber. O que importa saber é que esta nossa época, tão científica e tão cheia de luzes, ainda abriga monstros morais dos tempos de Tissot.


Crônica "A Carne é Forte"
Janer Cristaldo,
em "O Supremo Apedêuta".

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