quinta-feira, 13 de maio de 2010

Fundamentalistas


Igreja Católica busca afirmar supremacia no momento em que as religiões são superadas pelo progresso tecnocientífico e pela filosofia pós-metafísica


Antônio Flávio Pierucci é professor de Sociologia na USP, autor de, entre outros, "O Desencantamento do Mundo" (Ed. 34). Artigo publicado no caderno “Mais!” da “Folha de SP”:

Pobre século 21.

Quem poderia imaginar que a esta hora da pós-modernidade, que já vai bem avançada, fosse surgir, e surgir assim tão extemporaneamente insolente e aparentemente tão segura de si, essa figura esquisita e mofina de um fundamentalismo católico que entra em cena de salto alto, mas de mau jeito, na parte mais pós-cristã do Ocidente, que é a Europa pós-industrial?

Quem imaginaria?

Mesmo conhecendo o conservadorismo clerical do papa Bento 16 e o autoritarismo disciplinar por ele exercitado em seu passado recente de "grande inquisidor" no pontificado de João Paulo 2ø, quem poderia supor que seria dado já agora, em 2007, o passo discursivo decisivo para um mal-estar inter-religioso de monta num contexto cultural generalizado de afirmativo pluralismo cristão?

Fundamentalismo

Cabe lembrar que o tipo específico de pluralismo religioso alvejado pelo documento do Vaticano -o pluralismo de igrejas cristãs- constitui a tendência dominante que define a dinâmica do campo religioso brasileiro na atualidade.

"A única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica", acaba de afirmar o Vaticano.

Não bastassem a arrogância fundamentalista da "Christian America" monoteísta do governo de George W. Bush e a truculência fundamentalista do monoteísmo intransigente dos aiatolás e talebãs, agora vamos ter pela frente, para completar, mais esta espécie do mesmo gênero:

O fundamentalismo católico, que afirma o primado cristão da verdade católica no universo multicultural das igrejas cristãs agora declaradas "não-igrejas" ou "igrejas lacunares".

Sempre me pareceu difícil, enredada, a posição da Igreja Católica em matéria de pluralismo religioso. Seu ecumenismo mais progressista de vez em quando engasgava.

Não era para menos, pois tudo o que a impele à afirmação (plenamente legítima como pleito de identidade doutrinária feito a si) de que a fé em Cristo Deus-e-Homem é uma só – não podendo, portanto, a fé no mesmo Cristo ser senão a mesma fé – leva logicamente à conclusão de que a igreja de Cristo só pode ser uma.

Desde os primeiros séculos de um cristianismo tornado religião dominante (isto é, do início do século 4ø em diante), a reza diária ou semanal do credo cristão inclui a profissão de fé na igreja "unam sanctam".

Una, tanto sentido de unida quanto no de única em seu gênero, de uma só no singular.

A partir da era constantiniana, que inaugura a era dos concílios ecumênicos, tudo se passou como se o desiderato original de "unidade" das comunidades cristãs se abrisse para a pretensão lógica de "unicidade da igreja", armadilha objetivista que logo se fecharia na presunção prática de "unicidade do poder eclesial" apoiado no poder do Estado imperial.

Uma só fé, uma só igreja: é essa a velha lógica herdada do período triunfalista anterior ao Cisma do Oriente (século 11) e à Reforma protestante (século 16), que volta a presidir ao documento emanado da Congregação para a Doutrina da Fé (de 29/6/2007), assinado pelo cardeal William Levada e aprovado pelo papa, o qual (sic) "ordenou-lhe a publicação".

Ou seja: trata-se de uma tomada de posição magisterial que goza de máxima autoridade, atacada porém de convulsiva auto-suficiência e descabido autoritarismo. Não precisava tanto, é a impressão que dá.

O dogma da infalibilidade não diz que somente papas não erram em matéria de fé? Pois parece que, antes mesmo de se tornar Bento 16 [em 2005], o cardeal Ratzinger já andava absolutamente convencido de sua onipotência cognitiva.

A certeza de estar sempre certo em matéria de teologia cristã, mais certo que todos os outros, não aparece como capacidade nova adquirida do novo posto hierárquico, mas um dote pessoal que há décadas vem exercitando:

O de se saber mais certo que todos os outros cristãos católicos, romanos ou não; que todos os outros cristãos orientais ou ortodoxos; que todos os outros cristãos protestantes ou evangélicos.

O resultado é que o governo do papa Ratzinger se preocupa acima de tudo com questões de doutrina.

Desde que se tornou o "pastor alemão" do governo do polonês Wojtyla [João Paulo 2ø], tem se esforçado (em vão) por recolocar a religião católica no terreno do conhecimento dito objetivo, terreno esse já fartamente minado para toda religião desde a modernidade ilustrada, que dirá na pós-modernidade.

Desvantagem

Há muito que, no campo da(s) verdade(s) objetiva(s), a religião, seja ela qual for, não tem mais como competir intelectualmente, e é por isso que há tanta religião oferecendo cada vez mais transes, êxtases e outros mergulhos na interioridade inefável.

Como conhecimento, a religião leva de goleada do progresso tecnocientífico e da filosofia pós-metafísica.

Bento 16 é do tempo em que os humanos encaravam a religião como conhecimento verdadeiro, não como experiência vivida e interpretação não-objetiva da realidade. Ele é daquele tempo e desse tipo.

Faz-me lembrar da comparação feita por Weber (1864-1920) entre Lutero e Calvino: Lutero, o amoroso, Calvino, o lógico.

Em Calvino, diz Weber, a fé na arbitrariedade divina da salvação e da condenação eternas derivava não da experiência religiosa, como para Lutero, mas da necessidade lógica de seu pensamento.

Enquanto em Lutero a religião era algo "vivenciado" amorosamente, em Calvino era algo de friamente "pensado", "cogitado", levado às últimas conseqüências lógicas.

Para Calvino era mais importante seguir até o fim a coerência da verdade divinamente definida do que solidarizar-se responsavelmente com o destino e a convivência dos seres humanos.

Tal e qual Joseph Ratzinger, o primeiro papa do século 21. Com uma enorme diferença: tal disposição em Calvino foi impassivelmente revolucionária; em Bento 16, não poderia ser mais geladamente reacionária.


Jornal da Ciência

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