sexta-feira, 28 de maio de 2010

Pacto com Irã deixa mundo perigoso


A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deixou claro ontem que o Irã está azedando a relação entre Brasil e EUA. "Certamente temos uma divergência muito séria em relação à diplomacia do Brasil com o Irã", disse Hillary. Segundo ela, o caminho pregado pelo Brasil, de prolongar negociações em vez de aplicar sanções pela ONU, "deixa o mundo mais perigoso".

"Já dissemos ao presidente Lula e ao chanceler Celso Amorim que fazer o Irã ganhar tempo deixa o mundo mais perigoso, não menos", declarou ao ser indagada sobre o tema num evento do Instituto Brookings. Foi a mais dura e direta declaração sobre o assunto até agora.

Brasil e Turquia mediaram um acordo com o Irã, pelo qual Teerã se compromete a enviar 1.200 quilos de seu urânio para o a Turquia, de onde o combustível seria enviado para ser enriquecido na Rússia e França. O acordo foi rejeitado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança, que, liderados pelos EUA, anunciaram um consenso para aplicar nova rodada de sanções contra o Irã.

Armadilha. Segundo os EUA, o grande problema é que o Irã afirmou que vai continuar enriquecendo urânio a 20% mesmo com o acordo. A Casa Branca afirma que o acordo Brasil-Turquia-Irã foi apenas uma tentativa de Teerã de evitar as sanções.

Já o Itamaraty divulgou uma carta enviada por Barack Obama a Lula em 20 de abril, na qual o líder americano demonstra apoio ao acordo de troca de combustível. Dentro do governo brasileiro, há a sensação de que a Casa Branca fica "mudando de lugar as traves do gol", ou seja, estabelecendo objetivos cada vem mais difíceis de alcançar.

Na sessão de perguntas e respostas, Maurício Cárdenas, colombiano que é diretor da área de América Latina do Instituto Brookings, perguntou à secretária de Estado: "Gostaria de ouvir a opinião da senhora sobre a mudança do Brasil; tenho a impressão de que, no início, o Brasil era visto pelos EUA como parte da solução para lidar com divisões na região e no mundo; e, agora, é visto como parte do problema."

Hillary começou a falar em tom conciliador, diante de uma plateia de vários diplomatas, analistas e formadores de opinião. "Eu vejo o Brasil como parte da solução, um país com recursos extraordinários que pode usar para resolver problemas no hemisfério e, cada vez mais, além", disse Hillary.

Ela ressaltou o papel positivo do Brasil na estabilização do Haiti após o terremoto de janeiro e na cúpula do clima em Copenhague. "Mas nós discordamos deles, e vamos insistir, vamos dizer que os iranianos estão usando os brasileiros."

No relatório sobre a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgado ontem (mais informações na página A13), o governo americano não vê o Brasil como participante do bloco Bric. Todas as vezes o documento se refere a Índia, Rússia e China, e não junta o Brasil ao grupo. China, Rússia e Índia são chamados de "centros de influência do século 21". O Brasil é classificado apenas como "nação cada vez mais influente" - mesmo grupo de Indonésia e África do Sul.

PONTOS-CHAVE

TNP

EUA esperam que Brasil assine o protocolo adicional do Tratado de Não-Proliferação. Brasília rejeita firmar adendo até que países nucleares cumpram seus compromissos

Cuba

Governo brasileiro diz que o

embargo não tem mais sentido. Para levantar a medida, a Casa Branca insiste que a ilha deve mostrar progressos em

direitos humanos e democracia

Honduras

EUA condenaram o golpe, mas aceitaram a eleição de Porfírio Lobo como presidente, que não teve reconhecimento do Brasil - abrigou o deposto Manuel

Zelaya (foto) em sua embaixada

Irã

Brasil opõe-se às sanções contra o Irã por considerar que são ineficazes e podem intensificar o conflito. O governo americano tenta aprovar na ONU a quarta rodada de sanções



Estadão

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