domingo, 6 de junho de 2010

O Desastre Político que a Flotilha do Terror provocou


LUTO
À esquerda, funeral de vítimas do Mavi Marmara em Istambul. À direita, israelenses invadem o navio turco


Em uma operação desastrada para impedir um navio
de furar o bloqueio à Faixa de Gaza, Israel mata nove
pessoas e paga um alto preço político por isso

O conflito no Oriente Médio perpetua-se porque não apareceu uma força capaz de romper a seguinte lógica: Israel usa o terror palestino para justificar sua brutalidade, enquanto os palestinos apelam para a opressão israelense para legitimar seus crimes. Uma mão suja a outra. Essa prática teve um novo desdobramento na semana passada, com a morte de nove civis a bordo do Mavi Marmara. O navio turístico de bandeira turca seguia, na segunda-feira 31, com outros cinco barcos em direção à Faixa de Gaza quando foi interceptado pelas forças israelenses. A flotilha levava cerca de 700 pessoas (581 delas no Mavi Marmara) e um carregamento de brinquedos, leite em pó e material de construção. O objetivo era furar o bloqueio imposto por Israel ao território palestino em 2007. Às 4h30 da madrugada, dez soldados israelenses deslizaram de helicópteros para o convés do Mavi Marmara, a maior embarcação da flotilha. Segundo relatos de testemunhas, portavam armas não letais, como uma versão militar das pistolas de paintball carregada com balas de borracha. Cerca de sessenta homens os esperavam com bastões de madeira, barras de ferro, facas e cadeiras. Ao ver o linchamento de seus companheiros, um segundo grupo da Shayetet, a elite naval israelense, saltou sobre o navio - dessa vez, atirando com munição real. Os militares conseguiram tomar a embarcação, mas deixaram um saldo de nove mortos (todos turcos, um deles com cidadania americana) e 45 feridos, de ambos os lados.

O governo israelense pode até ter razão em muitas de suas acusações aos militantes pró-palestinos a bordo do navio. Sim, eles recusaram a oferta de atracar em Ashdod, um porto israelense, onde a carga seria inspecionada e depois seguiria por terra até Gaza, sob supervisão da ONU. Sim, o objetivo da flotilha não era puramente humanitário, mas provocar Israel e furar o bloqueio naval de Gaza. Sim, entre os passageiros estavam quarenta membros de uma organização turca que Israel acusa de ter ligações com o Hamas, a Al Qaeda e terroristas islâmicos do Afeganistão e do Paquistão. Nada disso, no entanto, justifica o desfecho trágico da ação militar em águas internacionais. Até a opinião pública israelense, que de maneira geral apoiou a decisão do governo de não deixar a flotilha furar o bloqueio, espantou-se com a incompetência tática no episódio. Na avaliação mais benevolente, as explicações oficiais de que os soldados "caíram numa emboscada", "foram pegos de surpresa" ou "esperavam enfrentar apenas agressões verbais" foram classificadas como ridículas. "Israel cometeu erros do início ao fim da operação em alto-mar, e o maior deles foi não ser inteligente o bastante para entender com quem estava lidando", diz Shmuel Bar, diretor do Instituto de Estudos para Política e Estratégia da Universidade de Herzliya, em Israel. Houve tempo de sobra para preparar um plano mais eficiente para conter a frota. A viagem e seu objetivo de desafiar o poder israelense já eram de conhecimento público no mínimo uma semana antes de os navios zarparem. A bordo havia jornalistas, cineastas, membros de organizações de direitos humanos, políticos europeus e simpatizantes da causa palestina de quatro dezenas de países. Considerando a tradição de Israel em atividades clandestinas, não teria sido difícil infiltrar alguns espiões nesse saco de gatos. Isso permitiria colher informações como o tipo de carga que os navios levavam e a forma como os passageiros pretendiam reagir a uma eventual abordagem militar.

FOGUETES E PIKACHU
No porto de Ashdod, à esquerda, armas apreendidas em barco que ia para o Líbano, no ano passado. À direita, a carga inofensiva do Mavi Marmara


Israel tem motivos para suspeitar de navios que insistem em não passar por sua inspeção. No ano passado, as forças israelenses apreenderam no Mar Mediterrâneo barcos mercantes abarrotados com armas. Eles tinham o Líbano como destino e a encomenda era para o Hezbollah, a organização islâmica que enfrentou Israel na guerra de 2006. É legítima a preocupação de que carregamento semelhante possa ser entregue ao Hamas, a organização islâmica que domina Gaza e tem como meta declarada a destruição de Israel. Na semana passada, contudo, entre invadir de modo desastrado o Mavi Marmara e abrir uma exceção para o navio seguir rumo ao território palestino, Israel teria perdido menos com a segunda opção. A lista de prejuízos políticos causados pelo massacre na flotilha é extensa:

• Israel deu um presente ao Hamas e a outros paladinos da intolerância em todo o mundo, que agora usam as mortes como propaganda antissemita. Protestos contra Israel espalharam-se por dezenas de cidades, de Kuala Lumpur, na Malásia, a Estocolmo, na Suécia. Como não se vê indignação igual quando o Irã enforca opositores ou homossexuais, por exemplo, isso apenas reforça a sensação entre os israelenses de que vivem sitiados no mundo;

• desviou a atenção internacional do programa nuclear iraniano, atrapalhando os planos do governo americano de aprovar neste mês, na ONU, uma nova rodada de sanções ao regime dos aiatolás;

• pôs em risco a reaproximação entre palestinos e israelenses incentivada pelo presidente Barack Obama, dos Estados Unidos. Se na Faixa de Gaza a entidade política dominante é o Hamas, com a qual é impossível negociar porque nega a priori o direito de existência a Israel, na Cisjordânia, o outro território palestino, o poder se concentra nas mãos do Fatah, um partido secular que aceita a solução de um estado árabe e um judeu convivendo lado a lado. Toda vez que o conflito árabe-israelense se radicaliza, como ocorreu na semana passada, quem sai fortalecido é o Hamas, não o Fatah e o seu chefe, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas;

• azedou as relações com a Turquia, um aliado valioso de Israel no mundo islâmico. Todos os mortos no assalto ao Mavi Marmara eram turcos e, em represália, Ancara retirou o seu embaixador em Tel-Aviv, cancelou o treinamento militar conjunto com Israel marcado para este mês e ameaçou romper totalmente as relações diplomáticas com o país. Na verdade, o governo turco, hoje na mão de um partido islamista, estava só esperando uma oportunidade para romper a amizade com Israel. Três dias antes do embate em alto-mar da semana passada, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse em entrevista a VEJA, no Rio de Janeiro: "Eu me preocupo com as armas nucleares de Israel, porque é um vizinho no Oriente Médio que não tem uma história muito pacífica";

DEPOIS DA TRAGÉDIA
Passageiro ferido no navio é levado a um hospital em Jerusalém


• pôs em evidência o bloqueio a Gaza, um assunto que andava esquecido pela comunidade internacional. O território viveu sob ocupação israelense até 2005, quando as tropas foram retiradas por decisão do então primeiro-ministro Ariel Sharon. A desocupação unilateral foi o primeiro presente de Israel ao Hamas, que a usou para se apresentar como vencedor no embate com os sionistas. Nos anos seguintes, os radicais palestinos passaram a usar a tripa desértica de 40 quilômetros de comprimento por 11 de largura como base de lançamento de foguetes caseiros contra Israel. Após vencer eleições, em 2006, e enveredar por uma luta fratricida com o Fatah, em 2007, o Hamas se transformou no senhor absoluto do pequeno território. Em seguida, Israel fechou o acesso a Gaza (com a colaboração do Egito) para atingir três objetivos: primeiro, tornar as condições no território insuportáveis a ponto de a população se voltar contra o Hamas; segundo, impedir a entrada de armas; terceiro, forçar a devolução de um soldado israelense sequestrado. Nenhuma dessas metas foi atingida. Com o isolamento, o Hamas ficou ainda mais forte e autoritário. Em dezembro de 2008, Israel bombardeou a Faixa de Gaza para coibir os foguetes, matando 1 400 pessoas. Quanto maior a pressão israelense, maior o apoio da população ao grupo islâmico. Não faltam, no entanto, alimentos, remédios e roupas ao 1,5 milhão de habitantes de Gaza. O comércio e a circulação de pessoas se dão através de túneis clandestinos sob a fronteira com o Egito. O Hamas criou até um imposto de importação específico para eles. Armas leves também chegam à Faixa de Gaza por esse caminho. Na semana passada, os governos de países amigos de Israel, como a França, fizeram coro pelo fim do bloqueio.

Se tivesse calculado corretamente os riscos políticos, o governo israelense poderia ter buscado outra saída para a crise com a flotilha pró-palestina. Em um contexto em que impera a convicção de que toda truculência deve ser revidada com mais truculência, contudo, decisões ponderadas são sempre as mais difíceis de tomar.

Artigo Gustavo Ioschpe

O maior inimigo de Israel

"Os sucessos militares de Israel, somados à sua relação
com os EUA, parecem ter embriagado o país a ponto de
fazê-lo pensar que a superioridade das armas resolve tudo"

Sou judeu, neto de sobreviventes do Holocausto. Devotei minha juventude à militância em movimento sionista e hoje sou casado com uma israelense. Essas circunstâncias pessoais, aliadas à curiosidade, me levaram a estudar o Oriente Médio há muito tempo. Por conta desse interesse, eu me manifestei sempre que o estado de Israel foi atacado injustamente. Seria vigarice intelectual ficar quieto diante do ocorrido na semana passada, pois as ações do governo israelense são uma afronta ao direito internacional, às básicas noções de moralidade e ao que se espera de um estado judeu que se declarou, na sua criação, "baseado na liberdade, justiça e paz, conforme prevista pelos profetas de Israel".

A interceptação da flotilha destinada a Gaza é apenas a mais recente trapalhada do governo israelense, hoje o maior inimigo de Israel. Não há como defender a legalidade de uma abordagem em águas internacionais, não havendo nenhuma quebra da soberania israelense, ainda mais contra uma embarcação lotada de civis e suprimentos.

A existência de um Israel pujante e democrático não é apenas uma alegria para o povo judeu como pode ser um auxílio ao mundo civilizado no combate ao extremismo islâmico - desde que haja paz. Países são ideias, que só ganham concretude quando compartilhadas pela comunidade internacional. Os sucessos militares de Israel, somados à sua relação com os Estados Unidos, parecem ter embriagado o país a ponto de fazê-lo pensar que a superioridade das armas resolve tudo. Essa visão procedia quando da fundação do estado, atacado por seus vizinhos, mas desde a guerra de 1967 e a construção da usina nuclear de Dimona ela se tornou anacrônica. O poder bélico deve estar a serviço da consolidação de paz, não da manutenção da guerra eterna. Até porque as superioridades militares não duram muito, e é bem possível que daqui a algumas décadas Israel precise das salvaguardas das instituições internacionais que hoje despreza.

Em um mundo que se defronta com crescentes ameaças internacionais - do aquecimento global à proliferação nuclear -, não podemos mais deixar que um país ignore o direito internacional. No caso israelense, a aderência às regras de convivência pacífica é fundamental para um país menor que Alagoas e que precisa exportar para crescer. Se o Hamas estivesse no comando de Israel, dificilmente conseguiria causar tanto estrago, em tão pouco tempo, quanto a dupla Olmert-Netanyahu. Em menos de dois anos, o país prejudicou suas relações com seus aliados, isolou-se, fortaleceu os extremistas e antissionistas do mundo todo e criou vergonha entre seus apoiadores e ódio em suas vítimas. O bloqueio a Gaza, além de imoral, é inútil. A única maneira de acabar com o Hamas é fortalecer os elementos moderados entre os palestinos. O bloqueio precisa acabar, a construção de assentamentos em territórios ocupados precisa acabar, a ocupação precisa acabar e Israel precisa chegar a um acordo que estabeleça um estado palestino viável nas fronteiras pré-1967. Antes que seja tarde demais.



veja.com

Um comentário:

Esperança disse...

Stenio, enviei por email um depoimento de uma brasileira que serve no Exército de Israel.