quarta-feira, 28 de julho de 2010

Desconfiança de Bogotá limita papel mediador do Brasil


Roberto Simon, Ruth Costas - O Estado de S.Paulo

A desconfiança da Colômbia em relação ao governo Luiz Inácio Lula da Silva limita a capacidade de mediação do Brasil na atual crise entre Bogotá e Caracas. Segundo analistas e ex-diplomatas dos dois países ouvidos pelo "Estado", a diplomacia do presidente Lula é percebida como excessivamente simpática ao governo de Hugo Chávez, embora, formalmente, as relações com Bogotá também sejam boas.

"Não é que Lula seja visto como hostil, mas certamente não inspira confiança no governo colombiano, como, por exemplo, o Chile ou o Peru", opina o cientista político Alejo Vargas, da Universidade Nacional da Colômbia. "Para a Colômbia, e em especial para (o presidente Álvaro) Uribe (que deixa o cargo no dia 7), é importante que os governos vizinhos reconheçam as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) como terroristas - e isso o Brasil não fez."

No mês passado, uma fonte próxima ao Ministério da Defesa colombiano disse, sob condição de anonimato, que autoridades de seu país ficaram "chocadas" ao encontrar, no computador apreendido de um líder guerrilheiro, indícios de que integrantes das Farc teriam tido acesso à figuras ligadas ao governo Lula durante as gestões do caso Olivério Medina - ex-padre vinculado à guerrilha refugiado em território brasileiro. Em 2008, o Brasil condenou duramente o bombardeio colombiano contra um acampamento da guerrilha no Equador (a Colômbia ficou isolada na região). E, em 2009, o governo brasileiro criticou o acordo que permite aos Estados Unidos usar sete bases militares na Colômbia.

Na ocasião, Chávez congelou as relações comerciais com Bogotá, o que causou prejuízos de bilhões de dólares e levou ao corte de 300 mil empregos. Isso não impediu que Uribe fosse recebido calorosamente por Lula em São Paulo - quando a questão das bases dos EUA foi formalmente dada por encerrada na agenda bilateral.

O governo colombiano é pragmático: o Brasil representa boas oportunidades de negócio e o presidente Lula pode ser um aliado na medida em que a estabilidade da região também lhe interessa. A desconfiança, porém, não foi completamente superada, principalmente pela disparidade na forma como o brasileiro trata Uribe e Chávez, segundo analistas.

Unasul e OEA. "Não há dúvida de que a solidariedade ativa do Brasil com Chávez - pois não se trata só de simpatia - contamina a relação com Bogotá", diz Roberto Abdenur, ex-embaixador do governo Lula nos EUA.

O fato de o Brasil ter defendido que a crise fosse tratada no âmbito da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) - e não na Organização dos Estados Americanos (OEA) - também desagradaria a Bogotá, segundo Sérgio Amaral, ex-embaixador em Paris também na era Lula. Na OEA, a Colômbia tem a "proteção" dos EUA, e na Unasul só é apoiada por Peru e Chile.

O ex-chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampreia, porém, ressalta que o incômodo causado pela relação de Lula com Chávez na Colômbia se concentra na esfera diplomática. As Forças Armadas dos dois países mantêm uma estreita cooperação. Fontes colombianas relatam uma relação especialmente fluida com o ministro da Defesa, Nelson Jobim.

Em 2009, Jobim disse que se rebeldes das Farc tentassem entrar no Brasil "seriam recebidos à bala". Não é difícil entender porque a ameaça agradou mais aos colombianos que a declaração de Lula na sexta-feira: "As Farc são problema da Colômbia e acho que deve ser tratado pela Colômbia", disse o presidente.

Dezembro de 2002
O presidente Fernando
Henrique Cardoso anuncia a exportação de petróleo e derivados para a Venezuela e envia um petroleiro da Petrobrás para ajudar o país durante o locaute que paralisou o setor petrolífero e ameaçou o governo de Chávez

Março de 2008
Bombardeio da Colômbia a um acampamento das Farc em território equatoriano mata Raúl Reyes, número 2 da guerrilha. Quito rompe relações com Bogotá. Brasil condena o ataque e exige que o governo colombiano peça desculpas

Dezembro de 2008
Colômbia sempre se mostrou cautelosa com o avanço da Unasul, principalmente com a criação do Conselho Sul-Americano de Defesa, oficializado apenas sete meses após a criação da organização

Julho de 2009
Brasil critica a Colômbia, que cedeu bases militares em seu território para os EUA. Lula disse que a questão "não o agradava" e pediu várias garantias, todas negadas por Álvaro Uribe

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