quinta-feira, 22 de julho de 2010

Os malabarismos de Chávez


O Globo - 22/07/2010

Quanto mais a corda bambeia, mais o equilibrista Hugo Chávez empilha pratos em suas piruetas no Circo Bolivariano, para desviar a atenção dos venezuelanos das mazelas do dia a dia: banditismo, falta de alimentos, inflação em alta, corrupção e ineficiência numa economia cada vez mais estatizada.

Um de seus atuais alvos é a Igreja Católica, não importa que 90% dos venezuelanos se digam católicos. Em outro malabarismo arriscado sobre o picadeiro, Chávez acusou a Igreja de planejar um golpe de Estado para derrubá-lo. Isto porque o arcebispo de Caracas, cardeal Jorge Uroa, disse que o coronel atropela a Constituição e leva o país pelo caminho do socialismo marxista.

O que, convenhamos, não é novidade alguma. Em outra tirada, Chávez afirmou que o Papa não é nenhum embaixador de Jesus Cristo na Terra. Não custa lembrar que Juan Perón resistiu a tudo, menos a um conflito com a Igreja da Argentina.

Enquanto duela com a Igreja equilibrando pratos num braço, o líder bolivariano cultua Simón Bolívar com o outro. Para tanto, encomendou a 50 especialistas a exumação dos restos do Libertador, no Panteão Nacional. O objetivo é provar que Bolívar não morreu de doença, mas foi assassinado, provavelmente pela oligarquia venezuelana, os Estados Unidos e a Colômbia. Chávez quer entronizar Bolívar como mentor da Revolução Bolivariana, quase um semideus, assim como Lenin para a União Soviética e José Martí ainda para a Cuba de Fidel e Raúl Castro.

E eis que o equilibrista joga mais alguns pratos no ar e os apanha, rodopiando, na cabeça, ao anunciar ao distinto público que o Estado venezuelano entrará como acionista da rede de TV Globovisión. Os meios de comunicação que não fazem parte do esquemão chapa branca e eles hoje escasseiam são continuamente demonizados pelo governo, que os apresenta como o mal tubarões assassinos, elefantes enlouquecidos, inimigos do povo.

A investida oficial para controle da Globovisión visa, em última análise, a estatizar completamente uma das únicas redes de TV críticas do governo ainda existente. A RCTV, que era a maior do país, foi silenciada como canal aberto. O caudilho já impõe às redes de TV a apresentação de seus malabarismos verbais no programa semanal Alô Presidente. Mas vai à loucura quando a imprensa, cumprindo sua obrigação, lembra que a lona do circo está furada, ou seja, que a inflação anual em junho foi de 31%, a mais alta da América Latina, que a economia encolheu 3,3% em 2009 e continuou no vermelho no primeiro trimestre de 2010. Ou que, enquanto os mercados estão às moscas, mais de 130 mil toneladas de alimentos apodrecem em depósitos de uma subsidiária da Petróleos de Venezuela, criada para importar comida.

O espetáculo tem que continuar pelo menos até as eleições parlamentares de 26 de setembro, quando o caudilho porá o prestígio em jogo numa época de tribulação. Desta vez a oposição concorrerá, ao contrário da operação avestruz que deflagrou em 2005, quando boicotou o pleito, e Chávez ficou absoluto.

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