segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Cadê as esquerdas?


O Estado de S Paulo

O diário madrilenho El País trouxe há 15 dias um artigo (Mercado y socialdemocracia) do professor de História Econômica Francisco Bustelo que depara com um fato desolador para as esquerdas europeias. Nem antes nem depois desta maior crise do regime capitalista desde os anos 30 foram os socialistas e os social-democratas europeus capazes de formular uma única proposta viável de solução ou de encaminhamento para o problema. As esquerdas assistiram caladas e catatônicas ao estouro das bolhas e, em seguida, à maior intervenção do Estado na economia que se teve notícia em todos os tempos.

Mais paradoxalmente ainda, o ajuste defendido pelos governos social-democratas da Europa é mais ortodoxo e mais espremedor de salários e de aposentadorias do que o ajuste colocado em marcha pelo governo dos Estados Unidos, este sim, um ajuste heterodoxo, para o qual têm sido evocadas as bênçãos intervencionistas do maior economista europeu, John Maynard Keynes.

Nenhuma força política de esquerda foi capaz de sugerir nem a estatização dos bancos nem o aumento de impostos sobre as camadas mais ricas da população, propostas inevitáveis no passado. Mas, afinal, o que seria a estatização dos bancos por países sem moeda, como é o caso da área do euro, e cuja política monetária é exercida por um organismo independente, o Banco Central Europeu (BCE)?

Não conseguem formular uma resposta factível também para o problema da imigração, hoje cada vez mais rechaçada por movimentos nacionalistas carregados de preconceito e intolerância. Assim, as forças que historicamente defenderam a união internacional dos trabalhadores, mais uma vez, sucumbem ao jogo egoísta dos interesses puramente locais.

As sugestões das esquerdas concentram-se na recomendação de que o desemprego e a prostração dos mercados se enfrentam com mais crescimento. Mas, outra vez, a posição prevalecente nos países social-democratas da Europa é a de que não há crescimento econômico consistente e duradouro sem equilíbrio das contas públicas. E esse equilíbrio, por sua vez, só pode ser obtido com mais austeridade e sacrifício dos trabalhadores. Esse ponto de vista é sustentado pelos socialistas e social-democratas de hoje.

A paralisia das esquerdas europeias parece também relacionada com a crescente percepção de que a maior criação da social-democracia, que é o Estado do bem-estar social (welfare state), está profundamente ameaçada. A colocação em marcha dos mecanismos automáticos de ajuste e de defesa contra a crise, principalmente do seguro-desemprego, foi um dos fatores que ajudaram a afundar as finanças públicas europeias. Hoje, o que se discute é se é possível manter esses institutos, junto com os da distribuição universal da saúde pública, da educação e da previdência social, sem afundar de uma vez o Estado.

A crise financeira evidentemente não é a principal causa da crise da política do bem-estar social da Europa – e isso não está no artigo do El País. Ela provém de camadas mais profundas e terá de enfrentar agora dois fenômenos de força maior que crescem independentemente da lógica do sistema capitalista global: o rápido e inexorável envelhecimento da população dos países ricos e a nova era da migração dos povos (e dos empregos).


Celso Ming

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