quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Jornais de Caracas denunciam censura


O Estado de S.Paulo

Na esteira das medidas adotadas por Hugo Chávez para restringir a atuação de emissoras de rádio e TV, jornais venezuelanos denunciaram ontem a prática de censura prévia aos meios impressos. Em protesto contra a decisão do Judiciário de proibir a publicação de fotos "violentas", o jornal El Nacional foi ontem às bancas com espaços em branco e tarjas com a palavra "censurado" na capa e na página destinada ao noticiário policial.

A proibição deu-se após o jornal de Caracas ter publicado, na sexta-feira, a foto de um necrotério com 12 cadáveres empilhados - com a qual denunciava a deterioração da situação da segurança pública no país. Na segunda-feira, outro jornal da capital, o Tal Cual, reproduziu a foto em desafio à proibição judicial.

"Publicamos a foto como uma forma de provocar um choque na população diante do quadro de violência crescente no país", justificou o diretor do Nacional, Miguel Henrique Otero.

"A grande questão é que a medida de censurar a divulgação de informações sobre a criminalidade não resolve o problema da segurança pública, mas impede que ele venha à tona em um momento delicado do chavismo, quando ele vê ameaçada sua maioria na Assembleia Nacional nas eleições de 26 de setembro", disse ao Estado, por telefone, Ricardo Alvarez, professor de ciências políticas da Universidade de Caracas.

Marcelino Bisbal, titular da cadeira de comunicação da Universidade Andrés Bello, ressalta que, apesar da ofensiva contra emissoras, nunca houve um ataque tão direto quanto esse. "É curioso verificar que a medida vigorara, inicialmente, por um mês. Coincidentemente, o período em que estaremos em campanha eleitoral", disse.

O combate à criminalidade é um dos pontos fracos do governo e visto pela oposição como um dos principais itens de política pública que podem tirar votos do governista Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV). Em 2009, o número de assassinatos em todo o país superou 16 mil - convertendo a Venezuela no país mais violento da América do Sul - e o número médio de mortes violentas em Caracas, a cada fim de semana, supera 50. O governo não apresenta balanços sobre a criminalidade há vários anos.

"Tudo isso é parte de um complô, de uma campanha internacional que toma espaços importante nas telas, nas cadeias internacionais de mídia, nos jornais da Europa, dos EUA e da América Latina. Estão desesperados e buscam sabotar a revolução com grosseria, a manipulação e a pornografia", disse Chávez ontem. "Há uma manipulação pornográfica e eleitoreira do tema da criminalidade."

O presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Alejandro Aguirre, qualificou a medida chavista de "torpe política de Estado em favor da censura prévia". "É um elemento a mais de censura num esquema governamental dedicado a silenciar os meios de imprensa."

Em Paris, o Repórteres sem Fronteiras também deplorou a medida, classificada como "grotesca e imprecisa". "A foto de um policial armado ou o simples anúncio de uma morte entraria no marco da norma?", indagou o RSF em nota. / COM AP e AFPN


PARA ENTENDER

Desobediência expõe infrator a multa pesada

A Justiça venezuelana emitiu medida cautelar proibindo jornais e revistas de publicar fotos ou qualquer outra modalidade de informação que inclua "sangue, armas, mensagens de terror e agressão física" em atendimento a um pedido da Defensoria do Povo e do Conselho de Direitos da Criança e do Adolescente. A norma, que passou a ser adotada ontem, deve vigorar inicialmente por um mês. A desobediência à medida pode resultar em "multas milionárias", segundo fontes judiciais, não especificadas explicitamente na medida.


PONTOS-CHAVE

RCTV
Governo fecha a rede RCTV, cuja concessão não foi renovada em 2007. Em janeiro, TV a cabo deixa de transmitir a RCTV internacional

Globovisión
Chávez tenta obter o controle acionário da última TV crítica ao governo após tomar ações de um de seus acionistas por dívidas do Banco Federal

Rádios fechadas
Comissão de Telecomunicações revoga concessão, desde janeiro, de 240 emissoras de rádio AM e FM, afirmando que as redes não fizeram recadastramento

Rede nacional
Presidente obriga 24 canais de TV a cabo a transmitir seus comunicados em rede nacional. Canais são classificados como "produtoras audiovisuais nacionais"

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