quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Abstenção, nulos e brancos


Jairo Nicolau - O Estado de S.Paulo

Nos últimos dias, tenho lido muitas declarações de dirigentes das campanhas preocupados com os eventuais efeitos da abstenção e dos nulos e em branco sobre os resultados do segundo turno. As informações que circulam são desencontradas, e a maior parte delas, não corresponde aos fatos. Para esclarecer ao leitor, segue m algumas informações sobre o tema.

1. A abstenção no primeiro turno foi de 18%. Valor semelhante ao das duas últimas eleições presidenciais: 2002 (18%) e 2006 (17%).

2. A abstenção subiu em todas as disputas do segundo turno nas eleições presidenciais, comparativamente ao primeiro turno: passou de 12% para 14% em 1989; de 18% para 21% em 2002 e de 18% para 20 % em 2006.

3. Nas eleições de 2010 a variação da taxa de abstenção entre as regiões, estados e municípios foi muito menor do que em eleições anteriores. Mas alguns padrões permaneceram: a abstenção é sempre menor na região Sul e maior nas regiões Norte e Nordeste, sobretudo nas cidades menores (ver gráfico).

4. Existem muitas evidências de que uma parte da abstenção deve-se a problemas com o cadastro e não são fruto de ação deliberada dos eleitores para não comparecerem. Nas eleições deste ano, houve um recadastramento dos eleitores de 57 cidades que utilizaram o voto biométrico. A média de abstenção nestas cidades foi de 10%, bem menor do que a do pais (18%).

5. Não há como prever o impacto do feriado sobre o crescimento da abstenção no segundo turno. Nas eleições para prefeitura do Rio de Janeiro em 2008 - que aconteceu no meio de um feriado prolongado - a abstenção passou de 18% para 20%. Curiosamente, o maior crescimento (em pontos porcentuais) da abstenção entre os dois turnos, aconteceu em áreas mais pobres da cidade, e não nas áreas de renda média e alta.

6. Temos o hábito de somar os votos em branco e os nulos. Mas eles têm padrões muito diferenciados no pais. Nas eleições presidenciais deste ano a taxa de votos em branco foi de 3% e a de nulos foi o dobro, (6%).

7. A taxa de votos nulos e em branco caiu em todas as disputas de segundo turno nas eleições presidenciais: de 7% para 6% em 1989, de 10% para 6% em 2002; de 8% para 6% em 2006.

8. Coincidentemente, o total de votos nulos e em branco em todas as disputas presidenciais no segundo turno foi 6%. Em números absolutos, o aumento da abstenção acaba sendo compensado pelo declínio dos votos anulados.

9. Os votos em branco se distribuem de maneira homogênea pelo país (ver gráfico). Não há diferenças relevantes por renda/escolaridade do município, nem localização no território. Os estados com taxas mais altas tiveram apenas 4% de votos em branco.

10. Os votos nulos têm padrões muito diferenciados. A taxa tende a ser mais alta nos municípios mais pobres e com mais analfabetos, sobretudo do Nordeste. Nas cidades menores (até 50 mil habitantes) do Nordeste o total de votos anulados foi de 10% (ver gráfico).

11. As cidades com mais taxa de votos nulos do Nordeste são redutos da Dilma. Mas em termos absolutos as perdas da candidata do PT foi muito pequena. Se as menores cidades nordestinas tivessem o mesmo patamar de votos nulos de todo o pais (6%), e se os votos dos eleitores que anularam tivessem a mesma distribuição da de outros eleitores de suas cidades, Dilma teria recebido 112 mil votos a mais, em relação aos seus adversários.

12. Na ponta do lápis, os efeitos da abstenção e dos votos nulos e em branco sobre o resultado final do segundo turno das eleições de 1989, 2002 e 2006 foi ínfimo. Não há razão para acreditar que este ano será muito diferente.

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