sábado, 23 de outubro de 2010

Indecisos e volúveis vão escolher o próximo presidente


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Eleição apertada é assim mesmo: para desespero dos estrategistas, quem decide são os indecisos. E suas variantes: o eleitor volúvel, o ambíguo, o tardio, o falso desencantado, aquele que talvez emende o feriadão. Na pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta – que dá 50% dos votos totais a Dilma Rousseff (PT) e 40% a José Serra (PSDB) – 6% dos entrevistados se autodeclaram indecisos e 4% pregam o voto branco ou nulo. Dos que declaram voto, 10% ainda cogitam trocar de candidato. Dos que votaram em Serra ou Dilma no primeiro turno, 4% e 5% trocaram de lado, respectivamente. E 1% diz que pretende viajar e, portanto, não vai comparecer às urnas.

Para efeitos sociológicos, indeciso é o eleitor que faz sua opção na reta final da disputa, a menos de 15 dias das eleições. É um fenômeno crescente verificado tanto nas democracias consolidadas como nas recentes, para o qual concorrem a diluição das marcas partidárias e o crescente volume de informações de que dispõem os eleitores para formar sua decisão. "Os indecisos são normalmente moderados, de centro, e não se identificam com nenhum partido", diz Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa, que estudou o fenômeno na Grécia, Espanha e Portugal. "E há outra característica: a indiferença ou a ambivalência em relação aos principais líderes e temas da campanha."

A ambivalência é conhecida das pesquisas. É por isso que se fazem perguntas aparentemente estranhas, como se um autodeclarado eleitor de um candidato, se ele votaria no adversário. Muitos respondem "talvez"; alguns dizem "certamente!". Nada de espantoso nisso. A maioria das pessoas abriga visões antagônicas de mundo e aplica uma ou outra conforme a situação, explica o lingüista George Lakoff, autor de "The Political Mind". Ambivalentes podem ser chamados 'moderados' ou 'centristas', mas, a rigor, podem se comportar de modo bastante extremado, indo de um polo a outro do espectro.

Esta volatilidade reflete um fato conhecido de neurocientistas e marqueteiros: o voto do eleitor não é resultado da fria ponderação de propostas ou retrospectos. Antes, espelha os valores morais, a bagagem emocional do eleitor e os sentimentos despertos pelos candidatos ao longo da campanha. E não há nada de errado com isso. "Em geral, é falso dizer que a emoção atrapalha a razão", diz Lakoff. "Ao contrário, a racionalidade requer emoção."

O prestígio dos aliados – As campanhas do tucano José Serra e da petista Dilma Rousseff estão atentas a este eleitorado volúvel e a dois movimentos de migração de voto: a partilha do eleitorado verde e a transferência de prestígio de aliados locais consagrados no primeiro turno.

Cerca de 6,2 milhões de pessoas elegeram governadores aliados de Serra, mas não votaram em Serra. Do lado governista, cerca de 3,8 milhões de pessoas deixaram de votar em Dilma, mas não no governador eleito da base aliada a ela. Somados os eleitores dos candidatos estaduais que passaram para o segundo turno, o estoque de votos do tucano vai a 7 milhões, e o da petista, a 3,8 milhões. A vantagem também é de Serra quando se estima o potencial de votos que os senadores eleitos podem transferir aos presidenciáveis aliados: 8,7 milhões para ele, contra 5 milhões para Dilma.


Quase a metade do potencial de transferência de votos do tucano se concentra em Minas Gerais. Para que esse potencial se concretize, Serra conta com o prestígio da principal força política do estado, Aécio Neves. No primeiro turno, o ex-governador conseguiu eleger como sucessor um técnico até então pouco conhecido, Antonio Anastásia. Além disso, conquistou uma das vagas no Senado para si e garantiu a outra para o ex-presidente Itamar Franco (PPS). A diferença entre os votos obtidos por Anastasia e Serra em Minas Gerais é de 3,3 milhões, quase o dobro da vantagem de Dilma no estado no primeiro turno, que foi de 1,7 milhão. Se realizada, a transferência do voto aecista é mais que suficiente para dar a vitória no estado a Serra. É bem inferior à vantagem nacional da petista no primeiro turno (14,5 milhões), mas, curiosamente, desde 1989, a votação em Minas tem sempre refletido o resultado final das eleições nacionais: quem ganha no estado, leva.


Dilma acompanhou mais de perto os bons e maus desempenhos dos aliados – afinal, estiveram todos sob a influência de um mesmo cabo eleitoral, o presidente Lula. Por essa razão, o potencial de transferência de votos em seu favor é bem menor. Isso explica porque, em vez de explorar o prestígio de aliados como Eduardo Campos (PSB), eleito com 82% dos votos em Pernambuco, a petista tenha optado por concentrar a campanha bem onde Serra procura ampliar sua fatia: o Sudeste. Quer anular a debandada pró-Serra em estados como São Paulo e Minas Gerais.

De qualquer forma, a conta fria da transferência de votos deve ser vista com reserva. "O eleitor não é propriedade dos políticos", diz o sociólogo Geraldo Tadeu Monteiro, presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social. "Os apoios são obviamente importantes, mas não resultam em adesão automática", acrescenta o cientista político Humberto Dantas, conselheiro da ONG Voto Consciente. Dantas lembra a mal sucedida tentativa de Marta Suplicy (PT) de eleger-se no segundo turno da eleição de 2004 para prefeito de São Paulo com votos do rival histórico Paulo Maluf (PP), que lhe declarou apoio contra Serra. Já Monteiro lembra a bem sucedida onda petista no Rio, no segundo turno da corrida presidencial de 2002, quando Anthony Garotinho, derrotado em primeiro turno, conseguiu transferir quase toda sua expressiva votação no estado para Lula, contra o tucano Serra.

A herança verde – A disputa pela Presidência ficou automaticamente apertada no segundo turno porque o espólio da terceira colocada, Marina Silva (PV), favoreceu o segundo colocado José Serra (PSDB). Faz sentido: o voto em Marina foi, para além da ideologia, um voto no segundo turno e, inicialmente, mesmo que involuntário, um voto anti-Dilma. Segundo o Datafolha, o tucano herdaria 46% dos votos de Marina (era 51% no último levantamento), e Dilma, 31 (era 23% há uma semana). Considerado o comparecimento em primeiro turno, isto significa um aporte de cerca de 9 milhões de votos em favor de Serra e de 6 milhões para Dilma, o que reduziria a vantagem da petista nas urnas de 14,5 milhões para 11,5 milhões de votos.

Mas há ainda um importante contingente do eleitorado que continua indeciso (12%) ou alega a opção pelo voto nulo/branco (11%). É o que impôs a agenda verde às campanhas de Dilma e Serra. Não é por outra razão que a petista lançou esta semana seus compromissos ambientais em encontro com o PV no Acre, do qual participaram lideranças tão díspares quanto o deputado Sarney Filho (PV-MA) e a filha do líder seringueiro Chico Mendes, Angela Mendes. No mesmo dia, Serra caminhava pelo Rio ao lado de Fernando Gabeira, um dos fundadores do PV, derrotado na disputa pelo governo do estado. Sabem que o eleitorado verde, diferentemente de Marina Silva, não poderá declarar "independência". Mais cedo ou mais tarde, ele terá de tomar a sua decisão.

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