segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O que há de errado com o País?


O Estado de S.Paulo

Daqui a dois anos farei 50 anos. Formei-me em 1983, no meio da pior recessão do País no pós-guerra. Minha geração viveu o governo militar, a frustração de ver que a redemocratização se revelara inicialmente incapaz de resolver os grandes problemas econômicos do Brasil e os anos cinzas da hiperinflação reprimida entre 1986 e 1994.

Quando nós que nascemos no final dos anos 50 ou começo dos anos 60 tínhamos em torno de 30 anos, no começo da década de 1990, a sensação que se tinha era de completa falta de perspectivas: o País estagnado, uma inflação absurda - que chegou a 3% ao dia! -, o crime aumentando nas grandes cidades, o desemprego subindo e uma distribuição de renda que envergonhava a todos.

Pensar em "autoestima nacional" nesse contexto era simplesmente inviável. A piada - uma espécie de exercício de autoflagelação - de que "a saída para o Brasil é o Galeão" (ou Guarulhos) era voz corrente na classe média carioca ou paulista na época.

Duas décadas depois disso, o panorama atual é completamente diferente. A hiperinflação pertence aos livros de História - nossos filhos são incapazes sequer de entender esse conceito. A inflação anual de hoje é equivalente à que se acumulava em dois dias em outras épocas. O crescimento foi se firmando. Os indicadores de violência estão em queda nas grandes cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. O desemprego é baixo e a distribuição de renda tem dado mostras de melhorar de modo contínuo.

E, entretanto, o País não irradia otimismo. Um conjunto de dados como os que foram acima citados deveria ser motivo de congratulação do Brasil como um todo, pois são uma conquista coletiva, da mesma forma que o Chile como país se orgulha de estar deixando a pobreza para trás ou que, mal comparando, todo europeu de 50 anos na década de 1970 teria todos os motivos para se orgulhar do que a Europa tinha feito com o desenvolvimento do continente, 25 ou 30 anos depois do cenário de devastação que existia em 1945.

Porém, não é de sensação de bem-estar com o Brasil o clima que se vive no País. Que a maioria da população está satisfeita, não resta a menor dúvida. Isso é diferente, porém, de as pessoas estarem satisfeitas com o País em que vivem.

Há um clima ruim no ar - e isso não faz bem a ninguém. Os argentinos têm se referido ao ambiente que impera por lá há bastante tempo, acentuado pela radicalização verbal do casal Kirchner, como sendo de "crispación permanente". Em menor escala, algo do gênero pode estar em curso aqui.

Como pode um parlamentar oposicionista ameaçar "bater" no presidente da República, como em conhecido episódio ocorrido em meados da década? Como é possível, por outro lado, dos palanques oficiais se pregar a "extinção" de um partido de oposição? Ou como podem algumas pessoas, por conta desse clima, se sentirem como se estivessem na Rússia de Stalin? Em outras palavras, há um clima político que não condiz com o que o País fez de bom nos últimos 20 anos - incluindo os governos tanto do PSDB como do PT.

O País precisa de um pouco de concórdia e de algo mais de sabedoria e sensatez, de parte a parte. Quem dará o tom da relação entre as diferentes forças políticas é o futuro presidente (ou presidenta). É ele(a) quem definirá a agenda, estabelecerá a pauta no Congresso Nacional e terá poder de comando sobre os acontecimentos políticos.

Dificilmente haverá chances de algum tipo de melhoria de ambiente prosperar, se prevalecer a beligerância que caracteriza as relações entre governo e oposição depois que o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci - que executava a arte do diálogo com maestria - saiu do governo.

O País precisa que sejam desarmados os espíritos, bem como que cada parte saiba entender melhor a lógica de comportamento da outra. O governo tem de entender que o papel da oposição é... ser oposição! E que isso faz parte das regras do jogo da democracia. E a oposição, por sua vez, deve entender que é próprio da função dela fazer denúncias - mas que ela não pode fazer apenas denúncias, sem ter também um elenco claro de propostas, entre outras coisas porque, caso contrário, corre o risco de continuar minguando, como tem ocorrido com sua representação parlamentar desde 2002.

O Brasil avançou, mas, se o brasileiro não se orgulha do país em que vive, é porque existe a percepção de que as instituições não funcionam bem. Governo após governo, nos três níveis da Federação e com membros de todos os partidos, os escândalos se sucedem, sem que haja punição, e há grandes massas de recursos muito mal gastos. Atacar essas questões é uma tarefa pendente que demanda um aprimoramento institucional que requer, entre outras coisas, leis modernizantes e um zelo particular das autoridades no combate sem trégua à corrupção e às irregularidades.

É para essas questões que se deve voltar o esforço político. O País ganharia se, passada a contenda eleitoral, fosse possível aos diferentes grupos em disputa dar "adiós a las armas". Será que conseguiremos?

Fabio Giambiagi

ECONOMISTA, É AUTOR DE ''REFORMA DA PREVIDÊNCIA'' (ED. CAMPUS)



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