quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Eleições dividem o Congresso americano; Obama perde


Oposição republicana assume o comando da Câmara e cresce no Senado, mas não tira maioria dos democratas ali. Ruim para Obama - mas podia ter sido pior



Barack Obama foi reprovado no grande teste que os presidentes americanos enfrentam na metade de seus mandatos. Nas eleições legislativas de terça-feira, a oposição republicana retomou o controle da Câmara de Representantes depois de quatro anos de liderança dos democratas, governistas. Também conquistaram terreno no Senado, mas não conseguiram tirar a maioria do partido de Obama. Foi ruim para o presidente, mas poderia ter sido pior - o controle entre os senadores é um alento para o presidente, que recebeu um duríssimo recado das urnas dois anos depois de chegar ao poder. No pleito de 2008, Obama venceu com facilidade. Na noite de terça, seu partido amargou uma derrota de proporções significativas.

A derrota dos democratas - vista pelos analistas políticos como uma reação da população à economia empacada e a um índice de desemprego que insiste em não cair - ainda não tem números definitivos. De acordo com a projeção da rede de TV CNN, porém, os republicanos deverão conquistar pelo menos mais 60 cadeiras na Câmara, acabando com quatro anos de liderança democrata. Os conservadores superaram com folga a marca de 39 cadeiras conquistadas - número que era necessário para o triunfo na Câmara, com um total de 435 lugares. Entre as cadeiras que mudaram de mãos está, por exemplo, a do parlamentar da Virginia Tom Perriello, que não se reelegeu mesmo com o fortíssimo apoio do presidente.

Perriello, que tinha respaldado o pacote de estímulo econômico e a polêmica reforma da saúde promovida por Obama, perdeu sua vaga para o republicano Robert Hurt. Entre os democratas que conseguiram manter suas cadeiras está Barney Frank, de Massachusetts, co-autor da controversa lei de reforma financeira e um dos legisladores com perfil mais progressista. A perda do controle dos democratas tira da presidência da Câmara Nancy Pelosi, primeira mulher a ocupar o cargo, que será substituída pelo atual líder dos republicanos na Câmara, John Boehner, de Ohio. Boehner já recebeu um telefonema de Obama, que parabenizou o adversário. "A população mandou um recado a Obama: mude de rota", disse Boehner.

Sob a liderança do parlamentar, os republicanos prometem reverter a reforma da saúde aprovada por Obama e iniciar cortes de impostos que, segundo eles, ajudarão a reduzir o déficit e impulsionar o crescimento. Como justificativa para poder levar adiante essas medidas, usam o fato de que conquistaram a maior virada de assentos na Câmara desde 1948. O partido, porém, segue com minoria no Senado, que renovou 37 de suas 100 cadeiras. Os republicanos precisavam de dez cadeiras para ficar com o controle da Casa, mas as projeções indicam que eles não alcançarão os 51 assentos, o mínimo para a maioria. Será a primeira vez em oito décadas que a Câmara não muda de mãos ao mesmo tempo que o Senado.

Novas caras - Nas disputas entre candidatos a senador, os republicanos tiveram vitórias importantes, roubando assentos dos democratas em Indiana, Dakota do Norte, Arkansas, Wisconsin e Pensilvânia - sem contar Illinois, onde o revés dos democratas foi especialmente amargo. Naquele estado, o republicano Mark Kirk ocupará o assento que foi de Obama antes da eleição de 2008. No entanto, a democrata Barbara Boxer venceu a republicana Carly Fiorina na corrida ao Senado pelo estado da Califórnia, uma disputa das mais acirradas. Além disso, o líder democrata Harry Reid conservou sua cadeira pelo estado de Nevada, derrotando Sharron Angle, a republicana apoiada pelo movimento ultraconservador Tea Party.

A corrida entre Reid, um dos mais importantes aliados de Obama, e Sharron Angle, uma das novas caras apresentadas pelo Tea Party, foi um dos destaques da votação desta terça. Obama entrou na disputa pessoalmente, pedindo votos para seu líder no Senado. Conseguiu vencer essa briga, mas não impediu que os ultraconservadores do Tea Party saíssem do pleito com bons resultados. O primeiro triunfo da noite foi de Rand Paul, que conquistou vaga no Senado por Kentucky. O senador eleito avisou: "Chegamos a Washington para recuperar nosso governo". A segunda grande vitória do movimento foi com Marco Rubio, que bateu o independente Charlie Crist na disputa por uma cadeira no Senado no estado da Flórida.

O Tea Party deu seu apoio a 129 candidatos para a Câmara de Representantes e a nove para o Senado e teve como base de sua ascensão a insatisfação dos americanos mais conservadores com a situação da economia e com o aumento dos gastos públicos. As pesquisas de boca de urna realizadas na noite de terça mostraram um eleitorado descontente principalmente com o desempenho da economia, o assunto que mais preocupa os americanos. As pesquisas indicam também que os democratas perderam terreno entre as mulheres, os trabalhadores de renda média, os brancos, eleitores de maior idade e independentes. Além das derrotas no Congresso, os democratas perderam vagas também entre os governadores.

Leia no Blog de Nova York, por Caio Blinder:

No, he can’t. Foi uma humilhação para ele. Mas não é apocalypse now para o presidente Obama e muito menos para o país. Na terça-feira, os eleitores americanos determinaram uma correção de curso e removeram o Partido Democrata do comando da Câmara dos Deputados. Os republicanos tiveram avanços significativos, mas não conseguiram conquistar o Senado. Não existe como dourar a pilula. Será mais difícil para o presidente sorrir, mais há muito chão pela frente até 2012. O republicano Ronald Reagan e o democrata Bill Clinton sobreviveram ao desastre legislativo no primeiro mandato e foram reeleitos de forma confortável. Resta esperar que a longo prazo prevaleça o senso de otimismo dos americanos.

veja.com

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